há não pouco tempo atrás, percebi que queria escrever pra viver. melhor. queria ter a vida de um escritor. Todo aquele turbilhão de vivências e sensações desconexas batendo na cabeça como um picareta e deixando tudo tão confuso que não há saída a não ser vomitar.
no papel.
a experiência e o talento - sem esse não há esperança, fazem o que vale a pena ser lido.
comecei falhando aí. eu entendo que durante a maior parte da minha existência literária, vivi frugalmente demais pra entender a socio-selvageria que eu gostava tanto. e veja bem, esse déficit de vivência não foi necessariamente prejudicial.
enquanto me autocastrava com a faca cega de uma forte moralidade artificial, enterrando todos os meus desejos e impulsos, algo esguio, escuro - e divertido! - foi ganhando terreno dentro de mim. ódio, luxúria, soberba, negados durante anos foram se acumulando e hoje tudo fervilha e borbulha, batendo e sacodindo as grades da minha mente, querendo sair e me forçar a aceitar o sociopata megalomaníaco e escroto que eu sou.
eu queria comprar um livro de auto-ajuda que me ajudasse a se tornar uma pessoa pior.
pelos protocolos sociais e por um respeito distorcido que eu tenho pelas pessoas, essa grade metafísica normalmente é firme. e quando ela cai, ninguém se diverte mais que eu mesmo.
se quero fugir do meu próprio enfrentamento? pode ser. não quero enfrentar um pulha como eu. acho perigoso.
e daí me chamam de imaturo.
odeio essa palavra, imaturo. você é solteiro? imaturo. toma duas ou quinze de vez em quando? imaturo. não acredita que a porra do renato russo fala por todos nós? imaturo. prefere se esquivar de responsabilidades evitáveis? imaturo. não quer dar a bunda? você é a porra de um imaturo.
que seja, sou imaturo e quero a sujeira, o fedor, o desrespeito e o blasfemo. quero o errado e o doentio.
e é sobre isso que quero escrever hoje.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
domingo, 22 de novembro de 2009

quatorze-dois-três
quinze-dois-três
dezesseis-dois-três
soltar-kchunk
sessenta libras, dezesseis repetições, três séries.
eu gosto de pesos. você sabe onde pisa com eles.
bem, algumas vezes eu só tento ao máximo impedir que eles me esmaguem.
mas veja, você sabe que eles te esmagariam se pudessem. há honestidade.
eu gosto de pesos.
se eles estão prestes a acabar com o seu fôlego, você pode sentir a pressão.
você sabe que vai acontecer.
com pessoas, nunca se tem certeza.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
i´m a cowboy, baby
O meu tio caçula é foda. Hoje um jovem e bem sucedido ortopedista além respeitável pai de família, teve nos anos 90 seus dias de delinquência dos 20 anos.
E fez estrago. Sujeito muito bem apessoado, surfista que curtia o som do hardcore californiano, absurdamente boa praça. Bem distante do estereótipo esquisito da família, clássicos nerds. De longe, o mais sociável. No auge, boemizava de segunda à segunda.
Paradoxalmente, porém, algumas características da estirpe foram mantidas, como o QI destoante e a uma certa misantropia, acrescidas de peculiaridades muito próprias, como o senso de humor ultra ácido e uma cômica inclinação para a culinária.
Também, diferentemente dos irmãos mais velhos, pôde contar com um período de maior prosperidade financeira do meu avô.
Era tipo o meu herói, fora a parte do surf.
Certa feita, em Ponta Grossa, nos meus - não tão - imberbes 13 anos, meu Tio Marcos levou meu pai, minha irmã e este alegre ébrio para conhecer a loja de CD´S (!!) que um amigo tinha aberto.
Ficamos horas curtindo o lugar, escutando uma coisa e outra. Como meu pai estava junto, eu e minha irmã tinhamos certeza de que alguma coisa seria comprada.
Nosso amado coroa comprou para si um lindíssimo Live Evil, importado da Inglaterra, do Black Sabbath Dio Years, obviamente. Além disso, um greatest hits da Janis Joplin.
Quanto ao que minha irmã comprou, as areias do tempo trataram de enterrar. Não lembro nem a pau.
Tio Marquera ainda me deu um Foo Fighters The Colour and the Shape, que foi rodado - literalmente - à exaustão no mini system.
Mas eu ainda podia comprar um à minha escolha. As possibilidades eram imensas demais
para o meu estreitíssimo gosto musical, limitado ao heavy tradicional dos anos 70 e 80, que falavam de sexo e do diabo de forma tão ridícula que não escandalizariam nem uma professora do primário.
Depois de um tempo, ocorreu de todo mundo já de saco cheio me pressionar para eu escolher logo, o que só recrudescia a minha indecisão.
Logo, o amigo dono do estabelecimento veio com a solução perfeita!
Ele resolveu que como eu era um adolescente brabinho e transgressor, teria que escutar o gênio muscal, o mito, o messias salvador da nova música... KID ROCK!
QUEEE?
Só lembro que me senti imensamente ofendido. E hoje me contorço de rir do ridículo da cena. Que moral tem um pirralho pra sair batendo os pés da loja só porque lhe foi oferecido um produto errado?
Mas pensando melhor, Kid Rock também era sacanagem comigo.

E fez estrago. Sujeito muito bem apessoado, surfista que curtia o som do hardcore californiano, absurdamente boa praça. Bem distante do estereótipo esquisito da família, clássicos nerds. De longe, o mais sociável. No auge, boemizava de segunda à segunda.
Paradoxalmente, porém, algumas características da estirpe foram mantidas, como o QI destoante e a uma certa misantropia, acrescidas de peculiaridades muito próprias, como o senso de humor ultra ácido e uma cômica inclinação para a culinária.
Também, diferentemente dos irmãos mais velhos, pôde contar com um período de maior prosperidade financeira do meu avô.
Era tipo o meu herói, fora a parte do surf.
Certa feita, em Ponta Grossa, nos meus - não tão - imberbes 13 anos, meu Tio Marcos levou meu pai, minha irmã e este alegre ébrio para conhecer a loja de CD´S (!!) que um amigo tinha aberto.
Ficamos horas curtindo o lugar, escutando uma coisa e outra. Como meu pai estava junto, eu e minha irmã tinhamos certeza de que alguma coisa seria comprada.
Nosso amado coroa comprou para si um lindíssimo Live Evil, importado da Inglaterra, do Black Sabbath Dio Years, obviamente. Além disso, um greatest hits da Janis Joplin.
Quanto ao que minha irmã comprou, as areias do tempo trataram de enterrar. Não lembro nem a pau.
Tio Marquera ainda me deu um Foo Fighters The Colour and the Shape, que foi rodado - literalmente - à exaustão no mini system.
Mas eu ainda podia comprar um à minha escolha. As possibilidades eram imensas demais
para o meu estreitíssimo gosto musical, limitado ao heavy tradicional dos anos 70 e 80, que falavam de sexo e do diabo de forma tão ridícula que não escandalizariam nem uma professora do primário.
Depois de um tempo, ocorreu de todo mundo já de saco cheio me pressionar para eu escolher logo, o que só recrudescia a minha indecisão.
Logo, o amigo dono do estabelecimento veio com a solução perfeita!
Ele resolveu que como eu era um adolescente brabinho e transgressor, teria que escutar o gênio muscal, o mito, o messias salvador da nova música... KID ROCK!
QUEEE?
Só lembro que me senti imensamente ofendido. E hoje me contorço de rir do ridículo da cena. Que moral tem um pirralho pra sair batendo os pés da loja só porque lhe foi oferecido um produto errado?
Mas pensando melhor, Kid Rock também era sacanagem comigo.

pastéis, Roger Waters e Bruce Wayne
Piá, senta aqui que o pai vai te contar uma história.
Nos idos distantes da minha juventude de estudante, tinha um bar na frente da faculdade.
Era o bar do Cheng.
O Cheng era o único boteco que conseguia vender pastel de carne mais barato que pastel de queijo e pastel de camarão mais barato que pastel de carne!

Um dia, a vigilância sanitária em ação conjunta com o IBAMA invadiu o prestigioso ambiente. Lá, descobriram e catalogaram ao menos três dúzias de novos tipos de baratas e coisas nojentas análogas.
E fecharam o bar.
Foi aí a primeira vez em que eu soube o que era ser órfão.
PS - dedicado à day, que inspirou a história.
PPS - uma vez eu vi um indiano fazendo um kebab em Tours, França, que faria o Cheng morrer de vergonha.
Nos idos distantes da minha juventude de estudante, tinha um bar na frente da faculdade.
Era o bar do Cheng.
O Cheng era o único boteco que conseguia vender pastel de carne mais barato que pastel de queijo e pastel de camarão mais barato que pastel de carne!

Um dia, a vigilância sanitária em ação conjunta com o IBAMA invadiu o prestigioso ambiente. Lá, descobriram e catalogaram ao menos três dúzias de novos tipos de baratas e coisas nojentas análogas.
E fecharam o bar.
Foi aí a primeira vez em que eu soube o que era ser órfão.
PS - dedicado à day, que inspirou a história.
PPS - uma vez eu vi um indiano fazendo um kebab em Tours, França, que faria o Cheng morrer de vergonha.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
sábado, 12 de setembro de 2009
wicked game
um brinde à música de amor mais sensualmente angustiante do meu winamp.
http://www.youtube.com/watch?v=WsCBgWAvWpU&feature=fvw
http://www.youtube.com/watch?v=vqSkhS4W9C8&feature=quicklist
http://www.youtube.com/watch?v=4WA2jBMk-Pk
burning with desire
http://www.youtube.com/watch?v=WsCBgWAvWpU&feature=fvw
http://www.youtube.com/watch?v=vqSkhS4W9C8&feature=quicklist
http://www.youtube.com/watch?v=4WA2jBMk-Pk
burning with desire
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Agroindie
Eu sou um agroindie. (!!)
Ok, eu sei. Isso foi chocante. Eu mesmo ainda não me recuperei dessa constatação tão iconoclasta pra minha personalidade.
Mas eu explico musicalmente:
Durante boa parte da vida eu ridicularizei o campo, seus hábitos e seus personagens. Agora, me entusiasmo pra valer com a pira agrária.
E tenho por perto pilhas de revistas Dinheiro Rural e DBO (especializada em pecuária), além de literatura técnica específica, como Recuperação de Pastagens e Métodos Modernos para a Criação de Gado de Corte.
Outrora irrelevantes, INCRA, MST, Ministério da Agricultura, Ministério do Meio-Ambiente, ONGS pró ruralistas e pró ambientalistas, crises financeiras que fecharam um mol de frigoríficos, preço flutuante da arroba do boi e até previsão do tempo têm uma importância verdadeira.
Não me entenda mal. Eu não virei um agroboy. Meu apreço pela estética é intenso demais pra camisas xadrezes, calças cameltoe, cintos panelas, botinas e chapéus de abas largas.
Sim, eu sei. A indumentária supradescrita é o último must da moda curitibana - e do resto do país. Mas o divertido é que a maior parte dos que aderiram ao agrofashion não sabem diferenciar trigo de soja.
Sou um agroindie.
E me peguei discutindo com o meu avô se a exposição Araçatuba já tinha transformado a cidade na capital do nelore, mais importante que a tradicional feira de Uberaba.
Bom, eu gosto do nelore. Raça zebuína, de origem indiana, rústica e de boa carcaça. Resistente ao calor e doenças. Tudo bem, é menos precoce e demora mais pra amadurecer que as espécies taurinas européias e pra mandar pro figorífico.

Mas é o tipo que melhor se adaptou ao Brasil, país que possui o segundo maior rebanho bovino do mundo. Só perde para a Índia. Os fucking toilheads acham sacrílego comer a carne das vacas. Pasmem, mesmo o mignon!
O nelore é, antes de tudo, um forte. Um forte tal como descreveu o eugenista Euclides da Cunha sobre o sertanejo, num trecho d´Os Sertões.
Por isso, só é preciso ter pasto suficiente (brisantão ou tanzânia) pra boiada não sentir o vento passando nas canelas, sal nos cochos, água e vacinar. Daí é deixar a mãe natureza transformar um bezerro num boi - de preferência com mais de 18 arrobas.
O nelore é a música das massas. Adaptável, de grande aceitação comercial e nem um pouco sofisticado.
Mas o que eu queria mesmo era ter uma pequena fazenda pra criar a elite genética de raças taurinas européias em clima temperado.
Poderiam ser um rebanho de taurinas continentais, que tiveram um selecionamento genético que primava pela tração e trabalho. Ainda assim, e também por isso, possuem muita massa muscular com menor camada de gordura. E o peso final é assombroso. Muitos dos melhores exemplares de gado de elite do mundo tem origem limousin, belgian blue, charolês, piemontês, braunvieh ou marchigiana.
As européias continentais são o mainstream rock. Bem conhecidas e de boa vendagem, mas, por não serem rústicas, têm menor propensão a se criarem em qualquer lugar do Brasil.

Mas nada se compara a uma taurina britânica.
Ah, aberdeen, angus, hereford e red angus. Selecionadas geneticamente há gerações com o único propósito de nos prover com a melhor e mais terna carne. Possuem características - como fertilidade, precocidade sexual e de terminação, que fazem com que tenham reconhecimento mundial.

Assim, percebi que por gostar de um produto alternativo, mais raro, definitivamente não feito para as massas e de origem britãnica = sou um agroindie.
Ok, eu sei. Isso foi chocante. Eu mesmo ainda não me recuperei dessa constatação tão iconoclasta pra minha personalidade.
Mas eu explico musicalmente:
Durante boa parte da vida eu ridicularizei o campo, seus hábitos e seus personagens. Agora, me entusiasmo pra valer com a pira agrária.
E tenho por perto pilhas de revistas Dinheiro Rural e DBO (especializada em pecuária), além de literatura técnica específica, como Recuperação de Pastagens e Métodos Modernos para a Criação de Gado de Corte.
Outrora irrelevantes, INCRA, MST, Ministério da Agricultura, Ministério do Meio-Ambiente, ONGS pró ruralistas e pró ambientalistas, crises financeiras que fecharam um mol de frigoríficos, preço flutuante da arroba do boi e até previsão do tempo têm uma importância verdadeira.
Não me entenda mal. Eu não virei um agroboy. Meu apreço pela estética é intenso demais pra camisas xadrezes, calças cameltoe, cintos panelas, botinas e chapéus de abas largas.
Sim, eu sei. A indumentária supradescrita é o último must da moda curitibana - e do resto do país. Mas o divertido é que a maior parte dos que aderiram ao agrofashion não sabem diferenciar trigo de soja.
Sou um agroindie.
E me peguei discutindo com o meu avô se a exposição Araçatuba já tinha transformado a cidade na capital do nelore, mais importante que a tradicional feira de Uberaba.
Bom, eu gosto do nelore. Raça zebuína, de origem indiana, rústica e de boa carcaça. Resistente ao calor e doenças. Tudo bem, é menos precoce e demora mais pra amadurecer que as espécies taurinas européias e pra mandar pro figorífico.

Mas é o tipo que melhor se adaptou ao Brasil, país que possui o segundo maior rebanho bovino do mundo. Só perde para a Índia. Os fucking toilheads acham sacrílego comer a carne das vacas. Pasmem, mesmo o mignon!
O nelore é, antes de tudo, um forte. Um forte tal como descreveu o eugenista Euclides da Cunha sobre o sertanejo, num trecho d´Os Sertões.
Por isso, só é preciso ter pasto suficiente (brisantão ou tanzânia) pra boiada não sentir o vento passando nas canelas, sal nos cochos, água e vacinar. Daí é deixar a mãe natureza transformar um bezerro num boi - de preferência com mais de 18 arrobas.
O nelore é a música das massas. Adaptável, de grande aceitação comercial e nem um pouco sofisticado.
Mas o que eu queria mesmo era ter uma pequena fazenda pra criar a elite genética de raças taurinas européias em clima temperado.
Poderiam ser um rebanho de taurinas continentais, que tiveram um selecionamento genético que primava pela tração e trabalho. Ainda assim, e também por isso, possuem muita massa muscular com menor camada de gordura. E o peso final é assombroso. Muitos dos melhores exemplares de gado de elite do mundo tem origem limousin, belgian blue, charolês, piemontês, braunvieh ou marchigiana.
As européias continentais são o mainstream rock. Bem conhecidas e de boa vendagem, mas, por não serem rústicas, têm menor propensão a se criarem em qualquer lugar do Brasil.

Mas nada se compara a uma taurina britânica.
Ah, aberdeen, angus, hereford e red angus. Selecionadas geneticamente há gerações com o único propósito de nos prover com a melhor e mais terna carne. Possuem características - como fertilidade, precocidade sexual e de terminação, que fazem com que tenham reconhecimento mundial.

Assim, percebi que por gostar de um produto alternativo, mais raro, definitivamente não feito para as massas e de origem britãnica = sou um agroindie.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
O ano do bastardo
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Sobre a inocência infantil e a ebriedade
Quando este escriba ainda não tinha perdido a inocência para a maturidade física e moral - independentemente de essa perda ser fruto do desenvolvimento do indivíduo per se, como afirmava Hobbes ou para a sociedade maligna, de acordo com Rosseau - e ainda era uma inocente infante em Medianeira, eu possuía uma turma da rua. Tive sorte de ter um monte de crianças na vizinhança.
Nós, crianças, éramos destemidas, intrépidas. Em nosso pequeno peito batiam corações voluntariosos, de verdadeiros descendentes dos bravos imigrantes europeus que conquistaram esse Novo Mundo dos silvícolas pagãos e conseguiram manter sob cativeiro os negros sem alma durante gerações.
Jogávamos tamp-cross, polícia e ladrão, bets, caçador, Rei da Colina - esse era eu - andávamos de carrinho de rolima - ou carretilha - e fazíamos corridas nas pistinhas off-road de bicicleta. Até hoje tenho a minha Monark BMX Superstar, média e preta. Hah, o pequeno bad boy.
Claro, éramos crianças, e havia conflitos de interesses contínuos, frutos das nossas egocentradas mentes, apenas recentemente providas com a autoconsciência. Éramos egoístas, cruéis e soberbos, próximo do que Nietzsche tentou definir como o Übermensch. Por isso as nossas disputas eram resolvidas de uma maneira muito mais lógica e descomplicada do que as dos adultos, presos à desnecessários códigos de conduta moral, ética pública, valores religiosos e sociais, e por fim, a lei.
Nós recorríamos à chantagem emocional ou material, à manipulação explícita, nos ofendíamos das mais escabrosas maneiras e nos esmurrávamos sem sinal de piedade até que o assunto fosse posto em pratos limpos.
E no dia seguinte, éramos todos amigos.
Mas nem tudo era uma delícia de jardim epicurista, e a vida também tinha os seus perigos. Tínhamos que prometer olhar várias vezes antes atravessar a rua, e voltar pra casa quando anoitecesse para tomar banho e jantar.
As dedicadas mamães também destroçavam nossos frágeis e pequenos espíritos com histórias sobre o homem do saco, os traficantes de órgãos da kombi que atraiam crianças com doces, os garotos da nossa idade seqüestrados porque aceitaram caronas de desconhecidos...
Por isso, quando aparecia um indigente na rua, todos corríamos para a casa do amiguinho mais próximo, fechávamos o portão e ficávamos observando, em um medo refreado e silencioso.
Mas nem todos conseguiam conter seus impulsos.
Estou falando de mim.
Numa tarde ensolarada, passou um mendigo cavalarmente embriagado na rua. De trás das seguras grades de alguma casa, me equilibrando em cima do muro, gritei: "ÓIA O BÊBIDO!"

Ofendidíssimo com tamanha calúnia, e usando de ferina persuasão para se defender, o cidadão replicou no mesmo tom: "BÊBIDO É TU!"
Hoje vejo que ele tinha razão.
Nós, crianças, éramos destemidas, intrépidas. Em nosso pequeno peito batiam corações voluntariosos, de verdadeiros descendentes dos bravos imigrantes europeus que conquistaram esse Novo Mundo dos silvícolas pagãos e conseguiram manter sob cativeiro os negros sem alma durante gerações.
Jogávamos tamp-cross, polícia e ladrão, bets, caçador, Rei da Colina - esse era eu - andávamos de carrinho de rolima - ou carretilha - e fazíamos corridas nas pistinhas off-road de bicicleta. Até hoje tenho a minha Monark BMX Superstar, média e preta. Hah, o pequeno bad boy.
Claro, éramos crianças, e havia conflitos de interesses contínuos, frutos das nossas egocentradas mentes, apenas recentemente providas com a autoconsciência. Éramos egoístas, cruéis e soberbos, próximo do que Nietzsche tentou definir como o Übermensch. Por isso as nossas disputas eram resolvidas de uma maneira muito mais lógica e descomplicada do que as dos adultos, presos à desnecessários códigos de conduta moral, ética pública, valores religiosos e sociais, e por fim, a lei.
Nós recorríamos à chantagem emocional ou material, à manipulação explícita, nos ofendíamos das mais escabrosas maneiras e nos esmurrávamos sem sinal de piedade até que o assunto fosse posto em pratos limpos.
E no dia seguinte, éramos todos amigos.
Mas nem tudo era uma delícia de jardim epicurista, e a vida também tinha os seus perigos. Tínhamos que prometer olhar várias vezes antes atravessar a rua, e voltar pra casa quando anoitecesse para tomar banho e jantar.
As dedicadas mamães também destroçavam nossos frágeis e pequenos espíritos com histórias sobre o homem do saco, os traficantes de órgãos da kombi que atraiam crianças com doces, os garotos da nossa idade seqüestrados porque aceitaram caronas de desconhecidos...
Por isso, quando aparecia um indigente na rua, todos corríamos para a casa do amiguinho mais próximo, fechávamos o portão e ficávamos observando, em um medo refreado e silencioso.
Mas nem todos conseguiam conter seus impulsos.
Estou falando de mim.
Numa tarde ensolarada, passou um mendigo cavalarmente embriagado na rua. De trás das seguras grades de alguma casa, me equilibrando em cima do muro, gritei: "ÓIA O BÊBIDO!"

Ofendidíssimo com tamanha calúnia, e usando de ferina persuasão para se defender, o cidadão replicou no mesmo tom: "BÊBIDO É TU!"
Hoje vejo que ele tinha razão.
segunda-feira, 30 de março de 2009
Hellblazer
segunda-feira, 23 de março de 2009
Cabelos, volume II.
Meu cabelereiro é um artista abstrato incompreendido. Um gênio quebrando paradigmas estéticos nas cabeças alheias. Suas obras ficarão marcadas como o apogeu de toda uma época artística, e eu terei sido a cobaia, o pilar imortalizado para a posteridade. Sim, porque inexoravelmente, devido ao pensamento muito a frente de seu tempo, meu cabelereiro só será reconhecido em morte, postumamente.
Eu me olho no espelho e tenho vontade de fazer esse "em morte" mais cedo do que tarde.
O retorno de um clássico, sempre oportuno.
Eu me olho no espelho e tenho vontade de fazer esse "em morte" mais cedo do que tarde.
O retorno de um clássico, sempre oportuno.
quinta-feira, 12 de março de 2009
Negritos.
No tempo da minha pré-adolescência, ninguém tinha internet. Quer dizer, um monte de gente devia ter, mas à época, Medianeira se bastava como meu universo. E cara, eu achava aquele universo imenso!

Modem 56k da US Robotics: a culpa é toda dele!
Afinal, mesmo numa cidade de 40 mil habitantes existe um absurdo de gente interessante pra se conhecer, não é? Por conta disso e por tudo ainda parecer tão grande pra mim, eu não me sentia sozinho de maneira alguma.

Fragmento da cena medianeirense dos anos 90. Observem o precoce talento para as 1ª e 2ª Artes - Música e Dança - respectivamente.
Como um bom pequeno insone, passava a madrugada com livros divertidíssimos, como o manual básico de GURPS - e suas milhares de tabelas e regras até pra cavar buracos no deserto com chuva.
Ou ainda a releitura de Os 12 Trabalhos de Hércules do Monteiro Lobato, que colocava Pedrinho, Narizinho, Emília e o Visconde de Sabugosa batendo boca com os mitos e deuses gregos como se fossem o picolezeiro da esquina. E em português do início do século passado. Não é à toa que o meu vocabulário aos 11 anos era maior que o de agora.

Logo veio a internet lá pra casa, e o amado mIRC. No #medianeira, vi que a cena local era grande mesmo. Bem, toda aquela selva social assustadora para mim, o que tornava tudo muito divertido. Já fora do regional, conheci pelego de tudo que é canto, e ficou tudo muito maior. O buraco era mesmo mais embaixo. Embaixo tipo a fossa das marianas no pacífico.

A profundíssima fossa das marianas no pacífico demonstra como o buraco é mais embaixo.

Pelego de tudo que é canto.
Mas eu logo me adaptei.
Até me mudar pra Curitiba com 16 anos.
Hoje acho engraçado o fato de não ter me sentido entediado, sozinho naquele tempo esquisito da aurora da minha puberdade, quando eu ainda era imberbe. Afinal, eu passava muito tempo só comigo mesmo. Eu conseguia. Eu até gostava. É uma capacidade superhumana que eu atrofiei ao longo do tempo. A internet me amoleceu.
E não bastasse isso tudo, tenho que confessar: derrubei cerveja no teclado e as teclas do extremo esquerdo estão todas travadas. E era uma Hoegaarden. Já disse o Guto que deve ser um teclado feliz.
PS - O excesso de negritos é intencional. Tenho lido muitos quadrinhos, e eu adoro o drama dos negritos nas HQ´s.
Modem 56k da US Robotics: a culpa é toda dele!
Afinal, mesmo numa cidade de 40 mil habitantes existe um absurdo de gente interessante pra se conhecer, não é? Por conta disso e por tudo ainda parecer tão grande pra mim, eu não me sentia sozinho de maneira alguma.

Fragmento da cena medianeirense dos anos 90. Observem o precoce talento para as 1ª e 2ª Artes - Música e Dança - respectivamente.
Como um bom pequeno insone, passava a madrugada com livros divertidíssimos, como o manual básico de GURPS - e suas milhares de tabelas e regras até pra cavar buracos no deserto com chuva. Ou ainda a releitura de Os 12 Trabalhos de Hércules do Monteiro Lobato, que colocava Pedrinho, Narizinho, Emília e o Visconde de Sabugosa batendo boca com os mitos e deuses gregos como se fossem o picolezeiro da esquina. E em português do início do século passado. Não é à toa que o meu vocabulário aos 11 anos era maior que o de agora.

Logo veio a internet lá pra casa, e o amado mIRC. No #medianeira, vi que a cena local era grande mesmo. Bem, toda aquela selva social assustadora para mim, o que tornava tudo muito divertido. Já fora do regional, conheci pelego de tudo que é canto, e ficou tudo muito maior. O buraco era mesmo mais embaixo. Embaixo tipo a fossa das marianas no pacífico.

A profundíssima fossa das marianas no pacífico demonstra como o buraco é mais embaixo.

Pelego de tudo que é canto.
Mas eu logo me adaptei.
Até me mudar pra Curitiba com 16 anos.
Hoje acho engraçado o fato de não ter me sentido entediado, sozinho naquele tempo esquisito da aurora da minha puberdade, quando eu ainda era imberbe. Afinal, eu passava muito tempo só comigo mesmo. Eu conseguia. Eu até gostava. É uma capacidade superhumana que eu atrofiei ao longo do tempo. A internet me amoleceu.
E não bastasse isso tudo, tenho que confessar: derrubei cerveja no teclado e as teclas do extremo esquerdo estão todas travadas. E era uma Hoegaarden. Já disse o Guto que deve ser um teclado feliz.PS - O excesso de negritos é intencional. Tenho lido muitos quadrinhos, e eu adoro o drama dos negritos nas HQ´s.
segunda-feira, 9 de março de 2009
Amaciar
Eu dirijo mal.
Mal mesmo.
Mesmo assim, às vezes, eu gosto de acelerar. Não o meu carro, um 1.6 8v, pouco mais de 90 cv, com uma relação de marchas curtíssima que me obriga a andar a 40 km/h em quinta marcha. Dizem meus amigos entendidos que eu preciso amaciar. Tá. Certo. Morro de preguiça de enfiar o pé e ouvir o motor gritando.
Gosto de acelerar o carro do meu pai, um 3.3 V6 de 24 válvulas e 250 cv de potência, com um câmbio automático moderno que sabe o que eu quero do motor quando enfio o pé no acelerador.
Primeiro, ouço o rugido e vejo o conta-giros ir ao vermelho. Frações de segundo depois, a dianteira do enorme capô se inclina, e antes que eu perceba o aumento da velocidade, já sinto o meu corpo pressionado no largo e confortável banco de couro.
Nessa hora eu sempre deslizo as mãos pelo volante, apertando com força sua parte de madeira.
A velocidade aumenta, mas não observo o velocímetro. Busco pontos de referência no meu campo de visão, querendo me auto-proporcionar a sensação de velocidade que o estável sedã tão dificilmente me cede. A cabine anti-incêndio e ruídos veda qualquer tipo de som exterior, até mesmo o do vento se chocando contra a carroceria. Só ouço minha respiração e o meu motor.

Eu não teria como fazer esse ritual usando o tiptronic.
No auge do êxtase, recupero a consciência do meu corpo. Tenho frio na barriga, medo. Eu tiro o pé, encosto com leveza no freio. ABS com EBD e BAS, controle de tração e programa eletrônico de estabilidade são os filtros que impedem a minha falta de perícia se concretizar em tragédia. Se tudo mais falhar, que venham os 11 air-bags.
O motor se acalma, e eu rodo com suavidade, com o sistema de suspensão filtrando as imperfeições do piso. Respiro fundo, ligo a música, em alto volume e fidelidade, no sistema de som Infinity de dez alto-falantes.
Volto pra casa.
Esse fim de semana foi assim. Só que sem o carro.
E eu dirijo mal.
Mal mesmo.
Mesmo assim, às vezes, eu gosto de acelerar. Não o meu carro, um 1.6 8v, pouco mais de 90 cv, com uma relação de marchas curtíssima que me obriga a andar a 40 km/h em quinta marcha. Dizem meus amigos entendidos que eu preciso amaciar. Tá. Certo. Morro de preguiça de enfiar o pé e ouvir o motor gritando.
Gosto de acelerar o carro do meu pai, um 3.3 V6 de 24 válvulas e 250 cv de potência, com um câmbio automático moderno que sabe o que eu quero do motor quando enfio o pé no acelerador.
Primeiro, ouço o rugido e vejo o conta-giros ir ao vermelho. Frações de segundo depois, a dianteira do enorme capô se inclina, e antes que eu perceba o aumento da velocidade, já sinto o meu corpo pressionado no largo e confortável banco de couro.
Nessa hora eu sempre deslizo as mãos pelo volante, apertando com força sua parte de madeira.
A velocidade aumenta, mas não observo o velocímetro. Busco pontos de referência no meu campo de visão, querendo me auto-proporcionar a sensação de velocidade que o estável sedã tão dificilmente me cede. A cabine anti-incêndio e ruídos veda qualquer tipo de som exterior, até mesmo o do vento se chocando contra a carroceria. Só ouço minha respiração e o meu motor.

Eu não teria como fazer esse ritual usando o tiptronic.
No auge do êxtase, recupero a consciência do meu corpo. Tenho frio na barriga, medo. Eu tiro o pé, encosto com leveza no freio. ABS com EBD e BAS, controle de tração e programa eletrônico de estabilidade são os filtros que impedem a minha falta de perícia se concretizar em tragédia. Se tudo mais falhar, que venham os 11 air-bags.
O motor se acalma, e eu rodo com suavidade, com o sistema de suspensão filtrando as imperfeições do piso. Respiro fundo, ligo a música, em alto volume e fidelidade, no sistema de som Infinity de dez alto-falantes.
Volto pra casa.
Esse fim de semana foi assim. Só que sem o carro.
E eu dirijo mal.
sábado, 7 de março de 2009
Spider Jerusalém.

Mais um da série escritos inacabados: isso foi rascunhado com muita empolgação e pouco método, na madrugada de 1º de setembro de 2007. É obvio que nunca terminei. Mesmo assim, olha lá!
-------------------------------------------------------------------------------------
“Nós adorávamos nossa miséria, nos anos 80. E quem pode nos culpar?”
Acabei de ler o volume 8 da HQ obscura Transmetropolitan. É chocante, desconcertante e é escatológico em vários sentidos.
Mas também é soberbo, brilhante e profunda, profundamente sensível. Por trás das tiradas de humor cru vindos de uma realidade retalhada, espalhafatosa e amoral, sentimos a onda de choque da voz que mostra que a Cidade está viva, seja na mesopotâmica Ur, seja na surrealidade cyberpunkiana da metrópole amada e odiada por Spider Jerusalém, que come seus indefectíveis hambúrgueres de macaco.
Essa cidade está viva e é alimentada por todas as pessoas e culturas que nela vivem. Ela proporciona o máximo em possibilidades e experiências e seu preço é a degradação inexorável da moralidade. Não bastasse, essa degradação progride enquanto se tenta sobreviver num ambiente estranhamente paradoxal, onde as bravatas e sofismas são a regra e a verdade é um tipo de graal, ainda que procurada por pouquíssimos. Aqui, os jornalistas como Spider Jerusalém são os Cavaleiros da Távola Redonda.
“Meu garotão tem verrugas da moda. Ele fica duro, parece um maldito porco-espinho do sexo. As garotas adoram.”
Em Transmetropolitan, não existe frugalidade. Há o excesso, o exagero borbulhante nas idéias, nos corpos, no próprio exagero. E ninguém liga para as drogas. Elas são parte do cotidiano, assim como a televisão e o transporte público (pelo menos para alguns de nós).
É incrível. Sinto despeito e admiração desmedida ao mesmo tempo. Uma pessoa esquisitamente controversa, que vive no interior do sul da Inglaterra, chamada Warren Ellis escreve muito melhor que a maioria dos autores que conheço, sobre uma realidade totalmente ficcional e cuja essência é dificilmente alcançada pela grande maioria das pessoas do globo. O que dizer então dos ilustradores Darick Robertson e Rodney Ramos (conterrâneo!), que de maneira ímpar caracterizam essa realidade de maneira tão independente que chegam a ser considerados co-autores?
“Cale a boca.”
Transmetropolitan é ao mesmo tempo carnal e astral. Fala sobre anti-sépticos e avançados softwares e informação transferida diretamente ao cérebro, ao mesmo tempo em que mostra corpos sujos, membros artificiais sintéticos ligados à um cancro canceroso estabilizado por medicamentos cheios de efeitos colaterais. Fala do alcance messiânico de Deus por meio da tecnologia de ponta e de sexo como um analgésico para uma existência entediada numa babilônia tecnológica e pútrida.
Uma das histórias lança o dilema do que pode ser considerado humano. É humano uma mente escaneada que vive no mundo virtual? Ainda possui alma? É menos humano do que alguém que possui somente um membro artificial? Qual é o ponto de mutação de si próprio em que se perde a humanidade, a característica que possibilita alguém de se dizer humano? De um extremo, um software imortal e imaterial criado a partir de uma mente humana pode ser considerado humano, e do outro, alguém com ligas metálicas que consertaram um ombro com os ligamentos rompidos, não!
As impressões deixadas no cérebro do leitor são indeléveis como se tivessem sido feitas por um picador de gelo. Transmetropolitan me fez os olhos brilharem, me fez ter vontade de gritar, de pular, e por fim, de escrever. Faço de tudo para me ver dentro e rodeado holisticamente pelo seu universo. Sigo à risca as sugestões de leituras, de sites, de trilha sonora. Portishead toca no meu winamp e eu me sinto estranhamente conectado com um universo virtual e de possibilidades infinitas e antiéticas, quando percebo que minha mente não está na tela do monitor de LCD e eu posso olhar ao redor e me ver digitando, a sujeira que eu mesmo fiz na minha sala, o meu próprio corpo.
O que mais quero no momento é aprofundar meu conhecimento na cultura pop. Ler mais Grant Morrison, que é citado no editorial da revista, e um vago estalo me faz procurar na minha prateleira e perceber que já possuo um exemplar da obra desse outro notável artista inglês: Asilo Arkham, uma história esplendidamente atmosférica e sensorial do Batman. Os quadrinhos, a música pop underground, a sub e contracultura que ignoramos é fonte das mais ricas de todo o tipo de deleite artístico e psicológico.
Por fim, Trasmetropolitan nos dá a possibilidade de ver quão longe a humanidade pode chegar. E muito antes da invenção de sintetizadores de matéria e a possibilidade de downloadear sua mente para zilhões de foglets brilhantes.
PS - A quem interessar a arte de Warren Ellis, eu passo os scans!
Assinar:
Comentários (Atom)


