Ok, eu sei. Isso foi chocante. Eu mesmo ainda não me recuperei dessa constatação tão iconoclasta pra minha personalidade.
Mas eu explico musicalmente:
Durante boa parte da vida eu ridicularizei o campo, seus hábitos e seus personagens. Agora, me entusiasmo pra valer com a pira agrária.
E tenho por perto pilhas de revistas Dinheiro Rural e DBO (especializada em pecuária), além de literatura técnica específica, como Recuperação de Pastagens e Métodos Modernos para a Criação de Gado de Corte.
Outrora irrelevantes, INCRA, MST, Ministério da Agricultura, Ministério do Meio-Ambiente, ONGS pró ruralistas e pró ambientalistas, crises financeiras que fecharam um mol de frigoríficos, preço flutuante da arroba do boi e até previsão do tempo têm uma importância verdadeira.
Não me entenda mal. Eu não virei um agroboy. Meu apreço pela estética é intenso demais pra camisas xadrezes, calças cameltoe, cintos panelas, botinas e chapéus de abas largas.
Sim, eu sei. A indumentária supradescrita é o último must da moda curitibana - e do resto do país. Mas o divertido é que a maior parte dos que aderiram ao agrofashion não sabem diferenciar trigo de soja.
Sou um agroindie.
E me peguei discutindo com o meu avô se a exposição Araçatuba já tinha transformado a cidade na capital do nelore, mais importante que a tradicional feira de Uberaba.
Bom, eu gosto do nelore. Raça zebuína, de origem indiana, rústica e de boa carcaça. Resistente ao calor e doenças. Tudo bem, é menos precoce e demora mais pra amadurecer que as espécies taurinas européias e pra mandar pro figorífico.

Mas é o tipo que melhor se adaptou ao Brasil, país que possui o segundo maior rebanho bovino do mundo. Só perde para a Índia. Os fucking toilheads acham sacrílego comer a carne das vacas. Pasmem, mesmo o mignon!
O nelore é, antes de tudo, um forte. Um forte tal como descreveu o eugenista Euclides da Cunha sobre o sertanejo, num trecho d´Os Sertões.
Por isso, só é preciso ter pasto suficiente (brisantão ou tanzânia) pra boiada não sentir o vento passando nas canelas, sal nos cochos, água e vacinar. Daí é deixar a mãe natureza transformar um bezerro num boi - de preferência com mais de 18 arrobas.
O nelore é a música das massas. Adaptável, de grande aceitação comercial e nem um pouco sofisticado.
Mas o que eu queria mesmo era ter uma pequena fazenda pra criar a elite genética de raças taurinas européias em clima temperado.
Poderiam ser um rebanho de taurinas continentais, que tiveram um selecionamento genético que primava pela tração e trabalho. Ainda assim, e também por isso, possuem muita massa muscular com menor camada de gordura. E o peso final é assombroso. Muitos dos melhores exemplares de gado de elite do mundo tem origem limousin, belgian blue, charolês, piemontês, braunvieh ou marchigiana.
As européias continentais são o mainstream rock. Bem conhecidas e de boa vendagem, mas, por não serem rústicas, têm menor propensão a se criarem em qualquer lugar do Brasil.

Mas nada se compara a uma taurina britânica.
Ah, aberdeen, angus, hereford e red angus. Selecionadas geneticamente há gerações com o único propósito de nos prover com a melhor e mais terna carne. Possuem características - como fertilidade, precocidade sexual e de terminação, que fazem com que tenham reconhecimento mundial.

Assim, percebi que por gostar de um produto alternativo, mais raro, definitivamente não feito para as massas e de origem britãnica = sou um agroindie.
Um comentário:
Poxa, legal saber que tu tem blog. Faz eras que não falo contigo, só ouço pela ju que tu volta e meia vai visitar ela em floripa.
Eu tinha ouvido falar de um cara sobre essa história do nelore (que pra mim lembra Delorean do de volta pro futuro) e por isso que a carne argentina é melhor que a brasileira porque lá eles têm algum desses europeus (não sei qual é). Mas me lembro que achei muito interessante a explicação.
Não rola criar uns bifes de Kobe no Brasil também?
Abraço
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