quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Agroindie

Eu sou um agroindie. (!!)

Ok, eu sei. Isso foi chocante. Eu mesmo ainda não me recuperei dessa constatação tão iconoclasta pra minha personalidade.

Mas eu explico musicalmente:

Durante boa parte da vida eu ridicularizei o campo, seus hábitos e seus personagens. Agora, me entusiasmo pra valer com a pira agrária.

E tenho por perto pilhas de revistas Dinheiro Rural e DBO (especializada em pecuária), além de literatura técnica específica, como Recuperação de Pastagens e Métodos Modernos para a Criação de Gado de Corte.

Outrora irrelevantes, INCRA, MST, Ministério da Agricultura, Ministério do Meio-Ambiente, ONGS pró ruralistas e pró ambientalistas, crises financeiras que fecharam um mol de frigoríficos, preço flutuante da arroba do boi e até previsão do tempo têm uma importância verdadeira.

Não me entenda mal. Eu não virei um agroboy. Meu apreço pela estética é intenso demais pra camisas xadrezes, calças cameltoe, cintos panelas, botinas e chapéus de abas largas.

Sim, eu sei. A indumentária supradescrita é o último must da moda curitibana - e do resto do país. Mas o divertido é que a maior parte dos que aderiram ao agrofashion não sabem diferenciar trigo de soja.

Sou um agroindie.

E me peguei discutindo com o meu avô se a exposição Araçatuba já tinha transformado a cidade na capital do nelore, mais importante que a tradicional feira de Uberaba.

Bom, eu gosto do nelore. Raça zebuína, de origem indiana, rústica e de boa carcaça. Resistente ao calor e doenças. Tudo bem, é menos precoce e demora mais pra amadurecer que as espécies taurinas européias e pra mandar pro figorífico.



Mas é o tipo que melhor se adaptou ao Brasil, país que possui o segundo maior rebanho bovino do mundo. Só perde para a Índia. Os fucking toilheads acham sacrílego comer a carne das vacas. Pasmem, mesmo o mignon!

O nelore é, antes de tudo, um forte. Um forte tal como descreveu o eugenista Euclides da Cunha sobre o sertanejo, num trecho d´Os Sertões.

Por isso, só é preciso ter pasto suficiente (brisantão ou tanzânia) pra boiada não sentir o vento passando nas canelas, sal nos cochos, água e vacinar. Daí é deixar a mãe natureza transformar um bezerro num boi - de preferência com mais de 18 arrobas.

O nelore é a música das massas. Adaptável, de grande aceitação comercial e nem um pouco sofisticado.

Mas o que eu queria mesmo era ter uma pequena fazenda pra criar a elite genética de raças taurinas européias em clima temperado.

Poderiam ser um rebanho de taurinas continentais, que tiveram um selecionamento genético que primava pela tração e trabalho. Ainda assim, e também por isso, possuem muita massa muscular com menor camada de gordura. E o peso final é assombroso. Muitos dos melhores exemplares de gado de elite do mundo tem origem limousin, belgian blue, charolês, piemontês, braunvieh ou marchigiana.

As européias continentais são o mainstream rock. Bem conhecidas e de boa vendagem, mas, por não serem rústicas, têm menor propensão a se criarem em qualquer lugar do Brasil.



Mas nada se compara a uma taurina britânica.

Ah, aberdeen, angus, hereford e red angus. Selecionadas geneticamente há gerações com o único propósito de nos prover com a melhor e mais terna carne. Possuem características - como fertilidade, precocidade sexual e de terminação, que fazem com que tenham reconhecimento mundial.



Assim, percebi que por gostar de um produto alternativo, mais raro, definitivamente não feito para as massas e de origem britãnica = sou um agroindie.

Um comentário:

DoMarco disse...

Poxa, legal saber que tu tem blog. Faz eras que não falo contigo, só ouço pela ju que tu volta e meia vai visitar ela em floripa.
Eu tinha ouvido falar de um cara sobre essa história do nelore (que pra mim lembra Delorean do de volta pro futuro) e por isso que a carne argentina é melhor que a brasileira porque lá eles têm algum desses europeus (não sei qual é). Mas me lembro que achei muito interessante a explicação.
Não rola criar uns bifes de Kobe no Brasil também?

Abraço