Nós, crianças, éramos destemidas, intrépidas. Em nosso pequeno peito batiam corações voluntariosos, de verdadeiros descendentes dos bravos imigrantes europeus que conquistaram esse Novo Mundo dos silvícolas pagãos e conseguiram manter sob cativeiro os negros sem alma durante gerações.
Jogávamos tamp-cross, polícia e ladrão, bets, caçador, Rei da Colina - esse era eu - andávamos de carrinho de rolima - ou carretilha - e fazíamos corridas nas pistinhas off-road de bicicleta. Até hoje tenho a minha Monark BMX Superstar, média e preta. Hah, o pequeno bad boy.
Claro, éramos crianças, e havia conflitos de interesses contínuos, frutos das nossas egocentradas mentes, apenas recentemente providas com a autoconsciência. Éramos egoístas, cruéis e soberbos, próximo do que Nietzsche tentou definir como o Übermensch. Por isso as nossas disputas eram resolvidas de uma maneira muito mais lógica e descomplicada do que as dos adultos, presos à desnecessários códigos de conduta moral, ética pública, valores religiosos e sociais, e por fim, a lei.
Nós recorríamos à chantagem emocional ou material, à manipulação explícita, nos ofendíamos das mais escabrosas maneiras e nos esmurrávamos sem sinal de piedade até que o assunto fosse posto em pratos limpos.
E no dia seguinte, éramos todos amigos.
Mas nem tudo era uma delícia de jardim epicurista, e a vida também tinha os seus perigos. Tínhamos que prometer olhar várias vezes antes atravessar a rua, e voltar pra casa quando anoitecesse para tomar banho e jantar.
As dedicadas mamães também destroçavam nossos frágeis e pequenos espíritos com histórias sobre o homem do saco, os traficantes de órgãos da kombi que atraiam crianças com doces, os garotos da nossa idade seqüestrados porque aceitaram caronas de desconhecidos...
Por isso, quando aparecia um indigente na rua, todos corríamos para a casa do amiguinho mais próximo, fechávamos o portão e ficávamos observando, em um medo refreado e silencioso.
Mas nem todos conseguiam conter seus impulsos.
Estou falando de mim.
Numa tarde ensolarada, passou um mendigo cavalarmente embriagado na rua. De trás das seguras grades de alguma casa, me equilibrando em cima do muro, gritei: "ÓIA O BÊBIDO!"

Ofendidíssimo com tamanha calúnia, e usando de ferina persuasão para se defender, o cidadão replicou no mesmo tom: "BÊBIDO É TU!"
Hoje vejo que ele tinha razão.
7 comentários:
Muito criativos os seus comentários no meu blog. Pode passar lá sempre, quem sabe você não encontra algum dia algo que esteja a altura da sua inteligência. Assim, talvez algum dia eu ganhe mais do que suas risadas como comentários. Beijo.
www.bemoumalmequer.zip.net
galera!!! na minha infancia ocorreu o mesmo! os bebuns tem total razao!
samo ébrio, meu caro !
Só digo uma coisa: o melhor post até hoje.
isso me lembra aquela festejada música
"tornei-me um ébrio e na bebida tento esquecer.. aquela ingrata que eu amo e que me abandonou!"
Caro Alexandre,
Obrigado pelo gentil comentário.
Não consegui decifrar se nos conhecemos, mas se a resposta é não, saiba que ganhou minha amizade ao escrever sobre tampa cross!
Parabéns pelo texto. Espero que continuemos a interação.
Abraço.
HAHAHAHA, cê comentou no blog da minha namorada sobre Roma-Fiorentina. :P
será q fomos vizinhos?
E quanto ao 'bêbido', confesso que ainda estou com dores de barriga de tanto rir.
Doce infância!
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