







Como não escrever qualquer coisa em quaisquer situações, passo a passo:
Esse texto foi escrito e baseado em material pesquisado no líquido primordial e originador primeiro da ruindade literária: a internet.
1)
2) Comece a ter idéias que, no seu estado de entorpecimento, lhe parecem interessantes.
3) Fique muito irritado por ter que superar seu estado de debilidade e escrever sobre o maldito assunto que não sai da sua cabeça e não te deixa relaxar.
4) Escreva do jeito que vai saindo, sem se preocupar muito com a estrutura. Afinal, o importante é a inspiração. A formatação é mero trabalho proletário, não artístico.
5) Não perceba o resultado previsível: o que vai parecer um texto saído de um blog adolescente, ou pior. A única diferença mesmo é a ortografia certa. Quando muito, quando muito.
6) Ignore o passo acima se este era o resultado desejado.
7) Pra tirar essa impressão dos seus supostos leitores, pegue um dicionário de sinônimos e substitua tudo o que você puder por adjetivos mais específicos, “de maior precisão terminológica”.
8) Não estranhe quando o resultado previsível se concretizar: vai parecer um blog adolescente com cara de livro técnico dos muito chatos. Ou pior: vai parecer um texto do Alexandre.
9) Fique meio desconfiado da qualidade do trabalho, mas não conte pra ninguém.
10) Peça opiniões à amigos que, conhecendo seu temperamento afável, lhe perguntarão de qual livro do Dostoyévsky saiu o enxerto.
11) Fique orgulhoso e coloque na internet. (Não pule esse passo, ele é importante!)
12) Encha o saco. Depois de tanto trabalho, alguém tem que ler esse desgraça.
13) Ignore que essa atitude torna o artigo ainda pior. Acredite, um texto ruim que te forçam a ler é intragável.
14) Leia o texto outra vez, após uma ou duas semanas.
15) Quando então perceber que ficou escabrosamente ruim, blasfeme, grite impropérios, exclame palavrões variados, chute o balde e diga que nunca mais vai escrever nada.
16) Se prepare para dormir, e comece a ter sono / tome um fora, e fique deprimido / coma espetinho de picanha na praça Ozório, e fique aidético.
17) Volte ao o começo da receita.
Minha nutricionista me recomendou a alternar os fins de semana de bebedeira, e a tomar pequenas quantidades de destilado ao invés de cerveja.
Não vai acontecer.
Cerveja é um instrumento de socialização.
É ignição e catalisação da alegria latente do resto da semana.
Que a gente não sente, só pressente.
E tem mais: meu pai me disse que a cerveja é o pão líquido.
Hoje não tive paciência pra não fazer nada, e em meu intervalo intrajornada, me peguei lendo blogs de gente, tipo assim, suuuper in e antenada com o hype. Gostam de indie rock, fogem do pop escrachado como diabo da cruz, e tentam cravar a todo custo uma imagem alternativa e fashion. Alguém aí ouviu "James nas quartas e Wonka nas sextas"?
Constatei que há mais garotas que garotos quem fazem esse tipo de blog. E eles citam estilistas recém adentrados no mainstream da moda, gostam de terninhos assexuados, padrões em xadrez, calças justérrimas e óculos pretos de aros grossos. Invariavelmente possuem gadgets ultranecessários, como iPhones 3G de 16 gb - que descobri serem os únicos que possuem fundo branco.
Construindo uma atmosfera totalmente blasè, não hesitam em usar do sarcasmo. Também não têm pudor de ser elite econômica, o que é ótimo, e morar na Europa. Comumente Inglaterra ou França, embora os com sintomas mais aprofundados preferirem destinos como Glasgow, na Escócia. Lá trabalham subalternamente em estúdios de edição de filmes, uma paixão sintomática da classe, mesmo achando super out esbanjação de dinheiro e reclamando de pagar R$ 200,00 no show do Franz Ferdinand.
Eles até têm um vocabulário razoável, mas o gosto literário e musical corre a uma distância segura - para forjar atitude - dos clássicos.
Notei o fato comum de comumente terem entre 25 e 30 anos, e embora afirmem não gostar de estar envelhecendo, cultivam com um certo orgulho recatado dessa faixa etária, que se insinua de fato como a idade da moda. E a mim parece mesmo mais legal do que aquela fissura high school que tínhamos na segunda metade dos anos 90 e primeira metade dos anos 2000. Agora é fuckin´stylish mostrar algumas poucas e suaves marcas faciais pra denotar uma certa experiência na noite - de preferência de várias cidades do mundo, mas sem excessos.
Por que senão já vira junkie lifestyle. O que inexoravelmente já é o novo hype, liderado pela musa (sic) ultra junkie Amy Winehouse. Pfff...
E enfim, não pode haver excesso de sinais de vida libertina na cútis facial, mas só o suficiente, para mostrar que essa moçada já tem certa experiência e cultura e, agora, é quem domina e dita o cool dos programas. Que pode ser bar/café/bistrô ou mesmo uma balada alternativa. Tudo sem parecer tiozões o suficiente para cair no anacronismo e no tipo, "totalmente semana passada". Mesmo que o vintage ainda seja muito in.
E por fim, agora, me pego pensando... O que vai ser de mim quando eu também começar a exibir minhas primeiras - e espero, charmosas - ruguinhas?
Acho que ainda tenho idade para as dúvidas aparentemente intransponíveis. Talvez até para algumas indagações adolescentes. Espero muito que sim. Porque se ficaram as dúvidas da adolescência, muito pouca convicção me resta.
Da criança, há muito se perdeu o brilho dos olhos da felicidade plena.
Do adolescente, o olhar frio da ambição.
Já agora não sei quais são meus novos olhos, assim como o que de fato é caro para mim.
Quero descobrir...
De pronto, percebo que é tarefa hérculea. Já nem sei o que é importante, como não levar a vida num piloto automático... Embebido no tédio de uma existência sem alegria, buscando pequenos prazeres que dão, efemeramente, leves aquarelas ao desbotado cotidiano.
Desbravar novamente a sensação do livre, de fazer o que prezo sem esperar contentar.
Aos outros e a mim.
Alexandre, em estado bruto e em melhor forma.
E meu coração às vezes me dá pistas do turbilhão de intensidades coloridas a que fui predestinado. As que julguei, muito jovem, que estaria vivendo agora.
Mas tudo é cinza.
Desesperante, angustioso, desalentador cinza.
De que realmente sou feito?
Por hoje, só sei o que sinto.
Há noites em que se quer birita, alegria e boa companhia. Em outras, silêncio e repouso. Às vezes quero uma madrugada jogando video game. Mas por ora, o que mais almejo, e de todo coração, é um copo de eno sabor laranja.
É a vez do sertanejo universitário. O gênero sertanejo, auto proclamado herdeiro da música caipira e de raiz brasileira, de longa data é cultuado e explorado pela cultura de massa. Os grandes ícones dessa era são os músicos Zezé di Camargo & Luciano, Leandro & Leonardo e Chitãozinho & Xororó. Acontece que devido à sua temática recorrente à traições conjugais e releituras superficiais da melancolia caipira, o estilo caiu no ostracismo de grande parte do público consumidor. Alcunhas como breganejo ou sertanojo provam essa assertiva.
Porém, a bola da vez saiu da marginalidade econômica, social e cultural com músicas e roupagem mais moderna, além de um estilo mais fashion, fruto de um trabalho de marketing de muito esmero, e conquistou uma faixa etária mais jovem e rica, alçando-se ao centro do bolo midiático.
Milhões de jovens e não tão jovens assim aderiram ao estilo sertanejo universitário. Seus artistas mais populares, Bruno & Marrone, Edson & Hudson e César Menotti & Fabiano lotam e superlotam festivais e rodeios universitários, sagrando-se os novos ponta-de-lança do tsunami comercial do estilo.
Não obstante, existe aqui um inocente sofisma. É o conceito de que a forma de divertimento, seja da juventude ou não, deve ser desentranhada de questões políticas ou sociológicas. Sua máxima é o “gosto não se discute”. Deixando lado o gosto duvidoso do gênero, algumas considerações devem ser feitas:
O sertanejo universitário tornou-se mais fashion e atraente à massa de consumo porque sua releitura foi fortemente montada em cima do cowntry tradicional norte-americano. Independentemente de sua qualidade musical, o contexto ideológico desse estilo prega os piores valores da sociedade mais hipócrita do planeta. Como assim?
A cultura country é racista e eugenista. Os rancheiros e cowboys mantém uma atitude altamente discriminatória com pessoas não oriundas da cultura WASP – “white, angle-saxon and protestant.” Existe a convicção de que alguns indivíduos, por possuirem características físicas hereditárias, determinados traços de caráter e inteligência ou manifestações culturais são superiores a outros. Pense bem e repare: um negro não se encaixa de maneira alguma no conceito “calça jeans justa, botas, esporas e chapéu”. Mais alguém lembrou dos bigodes?
Essa cultura também impõe a doutrina do “Destino Manifesto” a qual expressa a crença de que o povo dos Estados Unidos é eleito por Deus para comandar o mundo, e, dessa maneira, o expansionismo norte americano seria apenas o cumprimento da vontade divina. Foi usado largamente como justificação teórica, teológica e ideológica para o genocídio dos indígenas e anexação de estados originalmente de outros países, como o Texas. Essa premissa é ainda mais forte na cultura country, porque sendo os americanos pioneiros na conquista do novo mundo, os cowboys foram os pioneiros na consolidação dessa conquista, da maneira mais forte e guerreira possível: a ocupaçao do oeste.
Como se isso não bastasse, o ícone da cultura country é a criação de métodos mórbidos de tortura de animais: o rodeio de peão. Nesses eventos, cada vez maiores, touros e cavalos são submetidos à mecanismos diversos que têm a função de irritar ou mesmo machucar os bichos, para que pulem mais e mais alto, enquanto um homem os monta, tentando não cair na aventura.
Por isso, estamos de uma maneira totalmente irracional adotando e justificando tais premissas. E o que é pior, os pivôs dessa adesão em massa são os universitários brasileiros, a parcela da população mais favorecida econômico e socialmente, dita elite intelectual do país. São os pilotos, os futuros líderes tomadores das rédeas, dos rumos da nação. E essa atitude apolítica e, porque não dizer, apoplética da nossa elite mostra muito bem qual rumo é esse - a verdadeira vassalagem ideologica do nosso povo, com consequências, logicamente, nos campos da cultura e da economia, entre tantos outros.
A decisão de seus gostos de estilo ou musicais são somente seus, garantidos por valorosas conquistas democráticas duramente batalhadas por nossos antecessores. Granças aos céus, ninguém poderá dizer a ninguém o que vestir, escutar, e, enfim, ser. Mas as decisões são ideológicas. Por isso, seja responsável pela suas decisões. Eu já escolhi a minha. Não quero ser vassalo de ninguém, e não quero meu povo avassalado.
Alexandre, 22 de março de 2007.
E uma história recorrente é a do seu amigo Gilson. Por quem, pelo o que pude perceber, meu pai sempre sentiu uma simpatia muito profunda. Quer dizer, nos retalhos de descrição que eu incorporava no meu Eu-lírico, pintei o Gilson como um cara de intelectualidade destacada, um bom senso crítico, apesar de um quê de insegurança.
Talvez uma psique parecida com a do meu pai na aurora de seus tempos, resguardando-se as diferenças óbvias. No entanto, o elemento caracterizador do personagem Gilson é seu status de exímio enxadrista. Imagino adversários tremendo. Meu pai era o terceiro tabuleiro daquela – na minha mente - multicampeã equipe do colégio, e, mesmo tendo se tornado satisfatoriamente competente na arte, nunca alçou o padrão de excelência do Gilson.
Pois bem, Gilson e meu pai cresceram amigos
Não tenho idéia de onde se encontraram pela primeira vez, mas desconfio de que foi na escola, onde ambos, tanto no ensino fundamental quando no médio, passaram no vestibulinho de uma das melhores escolas da cidade. Escola pública.
Sim, nenhum deles tinha dinheiro. Meu avô, longe do patrimônio que viria a acumular no futuro, era vendedor de carros. Já o Gilson é filho único – mesmo que mimado – de um sapateiro. Imagino que se alocassem com impressionante naturalidade no loci dos nerds na complicada estrutura social da adolescência. Longe da grana dos “burgueses”, como eram chamados à época os playboys, mas com dinheiro e apoio familiar suficiente para desenvolver com relativo sucesso as suas imensas capacidades. Ah, claro, e também pela total inépcia social e total falta de tato com as garotas.
Prova cabal do determinismo genético.
Ambos fuori serie que eram, passaram juntos e na primeira tentativa no vestibular de medicina da UFPR. Foram bons amigos durante todo o curso, inclusive morando juntos durante o primeiro ano. Ambos, além do mítico Philipak da mitologia evandriana, o segundo tabuleiro da equipe. O descrevo como um polaco enorme e extremamente inteligente, que passou em primeiro lugar geral do mesmo vestibular, mas que, por influência de uma família fortemente protestante, resolveu cursar medicina na faculdade evangélica. Reza a lenda que Philipak acordava uma hora antes do Gilson e do meu pai para ter certeza de fazer uma toalete perfeita. Os outros dois lavavam o rosto. Às vezes.
Por fim, cada um seguiu na sua especialidade médica, na sua carreira e na vida. Gilson casou com uma Procuradora do Estado e exerceu a medicina seguindo as promoções de cidade de sua mulher. Têm três filhos. Até hoje penso se ele estaria milionário se tivesse continuado em Toledo, há 20 anos. Já meu pai pratica seu ofício numa certa caótica cidade do interior e teve dois filhos, atingindo boa parte das metas que nem sempre conscientemente teve.
E meu pai, mesmo lembrando com bastante carinho de seu amigo de longa data, não conseguiu vencer sua característica displicência e lhe dar a atenção merecida. Gilson, por outro lado, quase todo fim de semana toma um goró de uísque e liga para o meu pai.
Desenho em minha cabeça. Inteligente e sensível, Gilson é um homem solitário, triste e melancólico. Que liga para o amigo de infância quando se sente sozinho em sua confortável casa, segurando um copo de uísque na mão.
Sozinho, enfadado, entediado e angustiado, por hoje também sou Gilson, e, mesmo sem o conhecer, partilho sua solidão.
Alexandre, 14/07/2008.