Desde bem criança sempre fui fascinado pela vida de meu pai. Principalmente da época em que ele não possuía a experiência que tem hoje, quando sua figura, pra mim, se aproxima mais da falibilidade que os mortais têm. Meu pai – mais - jovem, mais próximo das minhas incertezas e angústias. Meu pai vulnerável. Buscava essas histórias com uma curiosidade consciente de detalhes de enredo, cenário e sensações. Um indício irresistível da minha vocação literária.
E uma história recorrente é a do seu amigo Gilson. Por quem, pelo o que pude perceber, meu pai sempre sentiu uma simpatia muito profunda. Quer dizer, nos retalhos de descrição que eu incorporava no meu Eu-lírico, pintei o Gilson como um cara de intelectualidade destacada, um bom senso crítico, apesar de um quê de insegurança.
Talvez uma psique parecida com a do meu pai na aurora de seus tempos, resguardando-se as diferenças óbvias. No entanto, o elemento caracterizador do personagem Gilson é seu status de exímio enxadrista. Imagino adversários tremendo. Meu pai era o terceiro tabuleiro daquela – na minha mente - multicampeã equipe do colégio, e, mesmo tendo se tornado satisfatoriamente competente na arte, nunca alçou o padrão de excelência do Gilson.
Pois bem, Gilson e meu pai cresceram amigos
Não tenho idéia de onde se encontraram pela primeira vez, mas desconfio de que foi na escola, onde ambos, tanto no ensino fundamental quando no médio, passaram no vestibulinho de uma das melhores escolas da cidade. Escola pública.
Sim, nenhum deles tinha dinheiro. Meu avô, longe do patrimônio que viria a acumular no futuro, era vendedor de carros. Já o Gilson é filho único – mesmo que mimado – de um sapateiro. Imagino que se alocassem com impressionante naturalidade no loci dos nerds na complicada estrutura social da adolescência. Longe da grana dos “burgueses”, como eram chamados à época os playboys, mas com dinheiro e apoio familiar suficiente para desenvolver com relativo sucesso as suas imensas capacidades. Ah, claro, e também pela total inépcia social e total falta de tato com as garotas.
Prova cabal do determinismo genético.
Ambos fuori serie que eram, passaram juntos e na primeira tentativa no vestibular de medicina da UFPR. Foram bons amigos durante todo o curso, inclusive morando juntos durante o primeiro ano. Ambos, além do mítico Philipak da mitologia evandriana, o segundo tabuleiro da equipe. O descrevo como um polaco enorme e extremamente inteligente, que passou em primeiro lugar geral do mesmo vestibular, mas que, por influência de uma família fortemente protestante, resolveu cursar medicina na faculdade evangélica. Reza a lenda que Philipak acordava uma hora antes do Gilson e do meu pai para ter certeza de fazer uma toalete perfeita. Os outros dois lavavam o rosto. Às vezes.
Por fim, cada um seguiu na sua especialidade médica, na sua carreira e na vida. Gilson casou com uma Procuradora do Estado e exerceu a medicina seguindo as promoções de cidade de sua mulher. Têm três filhos. Até hoje penso se ele estaria milionário se tivesse continuado em Toledo, há 20 anos. Já meu pai pratica seu ofício numa certa caótica cidade do interior e teve dois filhos, atingindo boa parte das metas que nem sempre conscientemente teve.
E meu pai, mesmo lembrando com bastante carinho de seu amigo de longa data, não conseguiu vencer sua característica displicência e lhe dar a atenção merecida. Gilson, por outro lado, quase todo fim de semana toma um goró de uísque e liga para o meu pai.
Desenho em minha cabeça. Inteligente e sensível, Gilson é um homem solitário, triste e melancólico. Que liga para o amigo de infância quando se sente sozinho em sua confortável casa, segurando um copo de uísque na mão.
Sozinho, enfadado, entediado e angustiado, por hoje também sou Gilson, e, mesmo sem o conhecer, partilho sua solidão.
Alexandre, 14/07/2008.
Um comentário:
Uma onomatopéia descreve bem o que eu quero dizer: clap, clap, clap.
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