É a vez do sertanejo universitário. O gênero sertanejo, auto proclamado herdeiro da música caipira e de raiz brasileira, de longa data é cultuado e explorado pela cultura de massa. Os grandes ícones dessa era são os músicos Zezé di Camargo & Luciano, Leandro & Leonardo e Chitãozinho & Xororó. Acontece que devido à sua temática recorrente à traições conjugais e releituras superficiais da melancolia caipira, o estilo caiu no ostracismo de grande parte do público consumidor. Alcunhas como breganejo ou sertanojo provam essa assertiva.
Porém, a bola da vez saiu da marginalidade econômica, social e cultural com músicas e roupagem mais moderna, além de um estilo mais fashion, fruto de um trabalho de marketing de muito esmero, e conquistou uma faixa etária mais jovem e rica, alçando-se ao centro do bolo midiático.
Milhões de jovens e não tão jovens assim aderiram ao estilo sertanejo universitário. Seus artistas mais populares, Bruno & Marrone, Edson & Hudson e César Menotti & Fabiano lotam e superlotam festivais e rodeios universitários, sagrando-se os novos ponta-de-lança do tsunami comercial do estilo.
Não obstante, existe aqui um inocente sofisma. É o conceito de que a forma de divertimento, seja da juventude ou não, deve ser desentranhada de questões políticas ou sociológicas. Sua máxima é o “gosto não se discute”. Deixando lado o gosto duvidoso do gênero, algumas considerações devem ser feitas:
O sertanejo universitário tornou-se mais fashion e atraente à massa de consumo porque sua releitura foi fortemente montada em cima do cowntry tradicional norte-americano. Independentemente de sua qualidade musical, o contexto ideológico desse estilo prega os piores valores da sociedade mais hipócrita do planeta. Como assim?
A cultura country é racista e eugenista. Os rancheiros e cowboys mantém uma atitude altamente discriminatória com pessoas não oriundas da cultura WASP – “white, angle-saxon and protestant.” Existe a convicção de que alguns indivíduos, por possuirem características físicas hereditárias, determinados traços de caráter e inteligência ou manifestações culturais são superiores a outros. Pense bem e repare: um negro não se encaixa de maneira alguma no conceito “calça jeans justa, botas, esporas e chapéu”. Mais alguém lembrou dos bigodes?
Essa cultura também impõe a doutrina do “Destino Manifesto” a qual expressa a crença de que o povo dos Estados Unidos é eleito por Deus para comandar o mundo, e, dessa maneira, o expansionismo norte americano seria apenas o cumprimento da vontade divina. Foi usado largamente como justificação teórica, teológica e ideológica para o genocídio dos indígenas e anexação de estados originalmente de outros países, como o Texas. Essa premissa é ainda mais forte na cultura country, porque sendo os americanos pioneiros na conquista do novo mundo, os cowboys foram os pioneiros na consolidação dessa conquista, da maneira mais forte e guerreira possível: a ocupaçao do oeste.
Como se isso não bastasse, o ícone da cultura country é a criação de métodos mórbidos de tortura de animais: o rodeio de peão. Nesses eventos, cada vez maiores, touros e cavalos são submetidos à mecanismos diversos que têm a função de irritar ou mesmo machucar os bichos, para que pulem mais e mais alto, enquanto um homem os monta, tentando não cair na aventura.
Por isso, estamos de uma maneira totalmente irracional adotando e justificando tais premissas. E o que é pior, os pivôs dessa adesão em massa são os universitários brasileiros, a parcela da população mais favorecida econômico e socialmente, dita elite intelectual do país. São os pilotos, os futuros líderes tomadores das rédeas, dos rumos da nação. E essa atitude apolítica e, porque não dizer, apoplética da nossa elite mostra muito bem qual rumo é esse - a verdadeira vassalagem ideologica do nosso povo, com consequências, logicamente, nos campos da cultura e da economia, entre tantos outros.
A decisão de seus gostos de estilo ou musicais são somente seus, garantidos por valorosas conquistas democráticas duramente batalhadas por nossos antecessores. Granças aos céus, ninguém poderá dizer a ninguém o que vestir, escutar, e, enfim, ser. Mas as decisões são ideológicas. Por isso, seja responsável pela suas decisões. Eu já escolhi a minha. Não quero ser vassalo de ninguém, e não quero meu povo avassalado.
Alexandre, 22 de março de 2007.
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