terça-feira, 29 de julho de 2008

Olhos vazios e paisagem cinza.

Acho que ainda tenho idade para as dúvidas aparentemente intransponíveis. Talvez até para algumas indagações adolescentes. Espero muito que sim. Porque se ficaram as dúvidas da adolescência, muito pouca convicção me resta.

Da criança, há muito se perdeu o brilho dos olhos da felicidade plena.

Do adolescente, o olhar frio da ambição.

Já agora não sei quais são meus novos olhos, assim como o que de fato é caro para mim.

Quero descobrir...

De pronto, percebo que é tarefa hérculea. Já nem sei o que é importante, como não levar a vida num piloto automático... Embebido no tédio de uma existência sem alegria, buscando pequenos prazeres que dão, efemeramente, leves aquarelas ao desbotado cotidiano.

Desbravar novamente a sensação do livre, de fazer o que prezo sem esperar contentar.

Aos outros e a mim.

Alexandre, em estado bruto e em melhor forma.

E meu coração às vezes me dá pistas do turbilhão de intensidades coloridas a que fui predestinado. As que julguei, muito jovem, que estaria vivendo agora.

Mas tudo é cinza.

Desesperante, angustioso, desalentador cinza.

De que realmente sou feito?

Por hoje, só sei o que sinto.

sábado, 26 de julho de 2008

Bibliografias.

Amigos imaginários, estou colocando o link do Judão nos arquivos bibliográficos.

A quem interessar, vale a pena dar uma lida na análise da estupenda campanha publicitária viral que foi feita para o filme The Dark Knight, aka BÁTIMA.

Que é excelente, por sinal.

Só perde pro insuperável Batman na feira da fruta.

Allegro ma non troppo.

Dormi ontem à meia noite, com o apartamento bem bagunçado.

Acordei hoje meio dia, e o apartamento parece ainda mais bagunçado. Ma che?

Depois, quando me enchi de ficar sozinho, resolvi ligar o winamp. Nesses tempos de soldião tenho me socorrido mais desse software - que já pode ser considerado commodity. Alguém aqui vai discordar que é um produto de primeira necessidade e vital para a sobrevivência no mundo moderno? Lancem ações do winamp na bolsa!

Eis que o destino colocou no meu caminho Futureal, a primeira música do Virtual XI do maiden. E o meu jeito de curtir um som é escutando o álbum inteiro. É a maneira mais completa, sabe? A imersão no clima é absoluta, e também se tem mais parâmetros pra diferenciação dos outros álbuns, sejam da mesma banda ou não. Cada álbum tem algo só seu, que não existe em nenhum outro. Um toque recorrente no teclado, um riff de guitarra padrão, o uso dos pratos da bateria, o ritmo do baixo, o timbre do vocalista. Influência da época e do estado de espírito dos caras quando foi feito.

E quanto ao Virtual XI... quando esse álbum foi lançado eu era só um piazinho, e foi certamente a época em que eu fui mais apaixonado por essa banda. De Medianeira, era muito difícil perceber histeria coletiva que cercava a banda no mundo inteiro, e eu me julgava especial e diferente por gostar, como se as músicas tivessem sido feitas só pra mim.

O que é ridículo. Vide Jerry Jackson falando de linkin park: http://www.fat-pie.com/linkinpark.htm

Mas enfim, não é maturidade que conta aqui, mas a atmosfera da época e suas sensações.

Que eram muitas.

Virtual XI tem músicas em ritmo de valsa. Tem teclados mais presentes do que em qualquer outra fase do maiden. As músicas são certamente mais lentas, mesmo que extremamente feelin´.

Alguém falou allegro ma non troppo?

Exclua-se os absurdos riffs e solos de meio de música da Don´t look to the Eyes of a Stranger.

Enfim, hoje já é impossível escutar o álbum desentranhando todo o sentimento que é regurgitado no meu coração pelas lembranças. É, mais ou menos, como uma máquininha do tempo, que ora é agradável, ora não.

E viva Blaze Bayley!

domingo, 20 de julho de 2008

Relatos incoerentes.

Quando eu era mais novinho e morava em Medianeira, ter ADSL era economicamente impraticável.

Todo mundo tinha net discada, e esperava dar meia noite pra ouvir o barulhinho do modem 56k da U.S. Robotics.

Nos canais do mIRC, a partir desse horário rolava uma avalanche de gente entrando.

Eu conheci uma quantidade absurda de gente legal pelo mIRC. É um crime contra a humanidade ele não ser mais usado. Penso em quanta gente podia ter conhecido.

Acontece que uma vez o meu modem queimou.

Não conseguia mais conectar, e agora?

Foi o caos na minha vida. Quebrou-se o modem, quebraram-se as regras de ouro, quebrou-se a minha harmonia.

Eu nem lembro quanto tempo levou pro meu pai comprar outro. Só sei que foi tempo.

Já em tenra infância já fui diagnosticado como um pequeno insone, e ficar sem o objeto de diversão era impensável.

Nos fins de semana não sofria, sempre tinha alguma coisa pra fazer. O que acontecia é que às vezes não ficava tão fácil combinar os esquemas sem o mIRC.

Mas da meia noite à 1:30 de cada dia, foi uma tristeza só.

Teve um fim de semana que eu tive as base de zerar quase todos os jogos de NEO GEO, que eu jogava pelo emulador NeoRage. Só lembrar já me emociona, esse console é totalmente foda! King of Fighters 94 ao 99, Art of Fighting I, II e III, Fatal Fury I, II, II Special, III, Fatal Fury Real Bout I e II e Fatal Fury Real Bout Special. Last Blade. Waku Waku Jam. Windjammers. Goukaiser. Cara, era tanta coisa linda, os enredos, as trilhas sonoras, a jogabilidade. Zé, obrigado MESMO por me inserir nesse mundo maravilhento dos emuladores e jogos! Eu jogava essa porra mesmo quando eu só tinha 16 mb de ram!

Mas eu ficava me sentindo mal de não poder estar no mIRC. Eu jogava NeoRage quando não tava falando com ninguém no mIRC ou quando ainda não era meia noite.

Eu jogava NeoRage de tarde, colocando os discos do meu pai na vitrola. Foi lá que eu conheci uma dúzia de álbuns do Iron Maiden, o burn do Deep Purple, e principalmente, Heaven and Hell do Black Sabbath. Eu não tinha 583908509 gigas de MP3 naquela época. O costume era escutar um só álbum, várias e várias vezes. Isso era legal, eu sentia com profundidade e precisão cada álbum, diferenciava com claridade dos outros da mesma banda. Meu, a gente ainda comprava CD´s! Eu, inclusive, ia na Guarani Musical.

Naquela época, eu gostava de ficar sozinho, jogandinho, lendo os livros da biblioteca, e uma lembrança muito forte: minha coleção de revistas Dragão Brasil, que eu assinava.

Mas eu também gostava muito quando o pessoal chegava de galera lá em casa, à qualquer hora, entre às 14:00 e 04:00 da matina, e a gente ficava jogando juntos ou conversando besteira, comendo a indescritível nega-maluca que a Edna, nossa empregada, fazia. Às vezes vinha só o Jardel e a gente jogava uns de corrida. Com o zé, destruíamos o teclado treinando combos nos de luta.

Lembro também da sala do computador, a disposição dos móveis. Da cozinha grande ali pertinho. Dos meus pais dormindo lá no quarto deles. Do meu quarto. Lembro de sair da sala, pela grande porta que dava direto pra fora da casa, olhar o céu cheio de estrela - céu que eu nunca vi em Curitiba - respirar o ar com cheiro de verde, sorrir e me sentir tão - tão feliz!

Ah, como eu amei os anos 90!

Memórias da juventude perdida.

Essa noite foi um saco.

Me prometo nunca mais me permitir entediar tanto.

sábado, 19 de julho de 2008

Cabelos.

Meu cabelereiro é um artista abstrato incompreendido. Um gênio quebrando paradigmas estéticos nas cabeças alheias. Suas obras ficarão marcadas como o apogeu de toda uma época artística, e eu terei sido a cobaia, o pilar imortalizado para a posteridade. Sim, porque inexoravelmente, devido ao pensamento muito a frente de seu tempo, meu cabelereiro só será reconhecido em morte, postumamente.

Eu me olho no espelho e tenho vontade de fazer esse "em morte" mais cedo do que tarde.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Necessidades inerentes à condição humana.

Há noites em que se quer birita, alegria e boa companhia. Em outras, silêncio e repouso. Às vezes quero uma madrugada jogando video game. Mas por ora, o que mais almejo, e de todo coração, é um copo de eno sabor laranja.

Sertanejo Universitário

Já faz mais de um ano que escrevi isso, pro jornaleco da faculdade. O aterrorizante é que ainda é atual.


É a vez do sertanejo universitário. O gênero sertanejo, auto proclamado herdeiro da música caipira e de raiz brasileira, de longa data é cultuado e explorado pela cultura de massa. Os grandes ícones dessa era são os músicos Zezé di Camargo & Luciano, Leandro & Leonardo e Chitãozinho & Xororó. Acontece que devido à sua temática recorrente à traições conjugais e releituras superficiais da melancolia caipira, o estilo caiu no ostracismo de grande parte do público consumidor. Alcunhas como breganejo ou sertanojo provam essa assertiva.


Porém, a bola da vez saiu da marginalidade econômica, social e cultural com músicas e roupagem mais moderna, além de um estilo mais fashion, fruto de um trabalho de marketing de muito esmero, e conquistou uma faixa etária mais jovem e rica, alçando-se ao centro do bolo midiático.


Milhões de jovens e não tão jovens assim aderiram ao estilo sertanejo universitário. Seus artistas mais populares,
Bruno & Marrone, Edson & Hudson e César Menotti & Fabiano lotam e superlotam festivais e rodeios universitários, sagrando-se os novos ponta-de-lança do tsunami comercial do estilo.


Não obstante, existe aqui um inocente sofisma. É o conceito de que a forma de divertimento, seja da juventude ou não, deve ser desentranhada de questões políticas ou sociológicas. Sua máxima é o “gosto não se discute”. Deixando lado o gosto duvidoso do gênero, algumas considerações devem ser feitas:


O sertanejo universitário tornou-se mais fashion e atraente à massa de consumo porque sua releitura foi fortemente montada em cima do cowntry tradicional norte-americano. Independentemente de sua qualidade musical, o contexto ideológico desse estilo prega os piores valores da sociedade mais hipócrita do planeta. Como assim?


A cultura country é racista e eugenista. Os rancheiros e cowboys mantém uma atitude altamente discriminatória com pessoas não oriundas da cultura WASP – “white, angle-saxon and protestant.” Existe a convicção de que alguns indivíduos, por possuirem características físicas hereditárias, determinados traços de caráter e inteligência ou manifestações culturais são superiores a outros. Pense bem e repare: um negro não se encaixa de maneira alguma no conceito “calça jeans justa, botas, esporas e chapéu”. Mais alguém lembrou dos bigodes?


Essa cultura também impõe a doutrina do “Destino Manifesto” a qual expressa a crença de que o povo dos Estados Unidos é eleito por Deus para comandar o mundo, e, dessa maneira, o expansionismo norte americano seria apenas o cumprimento da vontade divina. Foi usado largamente como justificação teórica, teológica e ideológica para o genocídio dos indígenas e anexação de estados originalmente de outros países, como o Texas. Essa premissa é ainda mais forte na cultura country, porque sendo os americanos pioneiros na conquista do novo mundo, os cowboys foram os pioneiros na consolidação dessa conquista, da maneira mais forte e guerreira possível: a ocupaçao do oeste.


Como se isso não bastasse, o ícone da cultura country é a criação de métodos mórbidos de tortura de animais: o rodeio de peão. Nesses eventos, cada vez maiores, touros e cavalos são submetidos à mecanismos diversos que têm a função de irritar ou mesmo machucar os bichos, para que pulem mais e mais alto, enquanto um homem os monta, tentando não cair na aventura.


Por isso, estamos de uma maneira totalmente irracional adotando e justificando tais premissas. E o que é pior, os pivôs dessa adesão em massa são os universitários brasileiros, a parcela da população mais favorecida econômico e socialmente, dita elite intelectual do país. São os pilotos, os futuros líderes tomadores das rédeas, dos rumos da nação. E essa atitude apolítica e, porque não dizer, apoplética da nossa elite mostra muito bem qual rumo é esse - a verdadeira vassalagem ideologica do nosso povo, com consequências, logicamente, nos campos da cultura e da economia, entre tantos outros.


O sertanejo universitário não é, de maneira alguma produto da nossa fecunda produção cultural, mas uma manifestação artística culturalmente pobre, criada artificialmente e artificialmente inserida em nossa sociedade por meio de um bombardeamento massivo pelos meios de comunicação.


A decisão de seus gostos de estilo ou musicais são somente seus, garantidos por valorosas conquistas democráticas duramente batalhadas por nossos antecessores. Granças aos céus, ninguém poderá dizer a ninguém o que vestir, escutar, e, enfim, ser. Mas as decisões são ideológicas. Por isso, seja responsável pela suas decisões. Eu já escolhi a minha. Não quero ser vassalo de ninguém, e não quero meu povo avassalado.



Alexandre, 22 de março de 2007.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

"Gilson."

"Gilson."

Desde bem criança sempre fui fascinado pela vida de meu pai. Principalmente da época em que ele não possuía a experiência que tem hoje, quando sua figura, pra mim, se aproxima mais da falibilidade que os mortais têm. Meu pai – mais - jovem, mais próximo das minhas incertezas e angústias. Meu pai vulnerável. Buscava essas histórias com uma curiosidade consciente de detalhes de enredo, cenário e sensações. Um indício irresistível da minha vocação literária.


E uma história recorrente é a do seu amigo Gilson. Por quem, pelo o que pude perceber, meu pai sempre sentiu uma simpatia muito profunda. Quer dizer, nos retalhos de descrição que eu incorporava no meu Eu-lírico, pintei o Gilson como um cara de intelectualidade destacada, um bom senso crítico, apesar de um quê de insegurança.


Talvez uma psique parecida com a do meu pai na aurora de seus tempos, resguardando-se as diferenças óbvias. No entanto, o elemento caracterizador do personagem Gilson é seu status de exímio enxadrista. Imagino adversários tremendo. Meu pai era o terceiro tabuleiro daquela – na minha mente - multicampeã equipe do colégio, e, mesmo tendo se tornado satisfatoriamente competente na arte, nunca alçou o padrão de excelência do Gilson.


Pois bem, Gilson e meu pai cresceram amigos em Ponta Grossa, aquela cidade de relativa baixa renda per capita, morros e morros com casas antigas com portas na calçada, um clima frio e úmido, imerso em uma atmosfera lúgubre, escura. Quase byroniana.


Não tenho idéia de onde se encontraram pela primeira vez, mas desconfio de que foi na escola, onde ambos, tanto no ensino fundamental quando no médio, passaram no vestibulinho de uma das melhores escolas da cidade. Escola pública.


Sim, nenhum deles tinha dinheiro. Meu avô, longe do patrimônio que viria a acumular no futuro, era vendedor de carros. Já o Gilson é filho único – mesmo que mimado – de um sapateiro. Imagino que se alocassem com impressionante naturalidade no loci dos nerds na complicada estrutura social da adolescência. Longe da grana dos “burgueses”, como eram chamados à época os playboys, mas com dinheiro e apoio familiar suficiente para desenvolver com relativo sucesso as suas imensas capacidades. Ah, claro, e também pela total inépcia social e total falta de tato com as garotas.


Prova cabal do determinismo genético.


Ambos fuori serie que eram, passaram juntos e na primeira tentativa no vestibular de medicina da UFPR. Foram bons amigos durante todo o curso, inclusive morando juntos durante o primeiro ano. Ambos, além do mítico Philipak da mitologia evandriana, o segundo tabuleiro da equipe. O descrevo como um polaco enorme e extremamente inteligente, que passou em primeiro lugar geral do mesmo vestibular, mas que, por influência de uma família fortemente protestante, resolveu cursar medicina na faculdade evangélica. Reza a lenda que Philipak acordava uma hora antes do Gilson e do meu pai para ter certeza de fazer uma toalete perfeita. Os outros dois lavavam o rosto. Às vezes.


Por fim, cada um seguiu na sua especialidade médica, na sua carreira e na vida. Gilson casou com uma Procuradora do Estado e exerceu a medicina seguindo as promoções de cidade de sua mulher. Têm três filhos. Até hoje penso se ele estaria milionário se tivesse continuado em Toledo, há 20 anos. Já meu pai pratica seu ofício numa certa caótica cidade do interior e teve dois filhos, atingindo boa parte das metas que nem sempre conscientemente teve.


E meu pai, mesmo lembrando com bastante carinho de seu amigo de longa data, não conseguiu vencer sua característica displicência e lhe dar a atenção merecida. Gilson, por outro lado, quase todo fim de semana toma um goró de uísque e liga para o meu pai.


Desenho em minha cabeça. Inteligente e sensível, Gilson é um homem solitário, triste e melancólico. Que liga para o amigo de infância quando se sente sozinho em sua confortável casa, segurando um copo de uísque na mão.


Sozinho, enfadado, entediado e angustiado, por hoje também sou Gilson, e, mesmo sem o conhecer, partilho sua solidão.



Alexandre, 14/07/2008.

Depois de anos tomando coragem, este é o inicio.
Talvez as esperanças - ainda - não sejam tão tardias.

Alexandre.