quinta-feira, 16 de abril de 2009

Sobre a inocência infantil e a ebriedade

Quando este escriba ainda não tinha perdido a inocência para a maturidade física e moral - independentemente de essa perda ser fruto do desenvolvimento do indivíduo per se, como afirmava Hobbes ou para a sociedade maligna, de acordo com Rosseau - e ainda era uma inocente infante em Medianeira, eu possuía uma turma da rua. Tive sorte de ter um monte de crianças na vizinhança.

Nós, crianças, éramos destemidas, intrépidas. Em nosso pequeno peito batiam corações voluntariosos, de verdadeiros descendentes dos bravos imigrantes europeus que conquistaram esse Novo Mundo dos silvícolas pagãos e conseguiram manter sob cativeiro os negros sem alma durante gerações.

Jogávamos tamp-cross, polícia e ladrão, bets, caçador, Rei da Colina - esse era eu - andávamos de carrinho de rolima - ou carretilha - e fazíamos corridas nas pistinhas off-road de bicicleta. Até hoje tenho a minha Monark BMX Superstar, média e preta. Hah, o pequeno bad boy.

Claro, éramos crianças, e havia conflitos de interesses contínuos, frutos das nossas egocentradas mentes, apenas recentemente providas com a autoconsciência. Éramos egoístas, cruéis e soberbos, próximo do que Nietzsche tentou definir como o Übermensch. Por isso as nossas disputas eram resolvidas de uma maneira muito mais lógica e descomplicada do que as dos adultos, presos à desnecessários códigos de conduta moral, ética pública, valores religiosos e sociais, e por fim, a lei.

Nós recorríamos à chantagem emocional ou material, à manipulação explícita, nos ofendíamos das mais escabrosas maneiras e nos esmurrávamos sem sinal de piedade até que o assunto fosse posto em pratos limpos.

E no dia seguinte, éramos todos amigos.

Mas nem tudo era uma delícia de jardim epicurista, e a vida também tinha os seus perigos. Tínhamos que prometer olhar várias vezes antes atravessar a rua, e voltar pra casa quando anoitecesse para tomar banho e jantar.

As dedicadas mamães também destroçavam nossos frágeis e pequenos espíritos com histórias sobre o homem do saco, os traficantes de órgãos da kombi que atraiam crianças com doces, os garotos da nossa idade seqüestrados porque aceitaram caronas de desconhecidos...

Por isso, quando aparecia um indigente na rua, todos corríamos para a casa do amiguinho mais próximo, fechávamos o portão e ficávamos observando, em um medo refreado e silencioso.

Mas nem todos conseguiam conter seus impulsos.

Estou falando de mim.

Numa tarde ensolarada, passou um mendigo cavalarmente embriagado na rua. De trás das seguras grades de alguma casa, me equilibrando em cima do muro, gritei: "ÓIA O BÊBIDO!"



Ofendidíssimo com tamanha calúnia, e usando de ferina persuasão para se defender, o cidadão replicou no mesmo tom: "BÊBIDO É TU!"

Hoje vejo que ele tinha razão.