Mais um da série escritos inacabados: isso foi rascunhado com muita empolgação e pouco método, na madrugada de 1º de setembro de 2007. É obvio que nunca terminei. Mesmo assim, olha lá! -------------------------------------------------------------------------------------
“Nós adorávamos nossa miséria, nos anos 80. E quem pode nos culpar?”
Acabei de ler o volume 8 da HQ obscura Transmetropolitan. É chocante, desconcertante e é escatológico em vários sentidos.
Mas também é soberbo, brilhante e profunda, profundamente sensível. Por trás das tiradas de humor cru vindos de uma realidade retalhada, espalhafatosa e amoral, sentimos a onda de choque da voz que mostra que a Cidade está viva, seja na mesopotâmica Ur, seja na surrealidade cyberpunkiana da metrópole amada e odiada por Spider Jerusalém, que come seus indefectíveis hambúrgueres de macaco.
Essa cidade está viva e é alimentada por todas as pessoas e culturas que nela vivem. Ela proporciona o máximo em possibilidades e experiências e seu preço é a degradação inexorável da moralidade. Não bastasse, essa degradação progride enquanto se tenta sobreviver num ambiente estranhamente paradoxal, onde as bravatas e sofismas são a regra e a verdade é um tipo de graal, ainda que procurada por pouquíssimos. Aqui, os jornalistas como Spider Jerusalém são os Cavaleiros da Távola Redonda.
“Meu garotão tem verrugas da moda. Ele fica duro, parece um maldito porco-espinho do sexo. As garotas adoram.”
Em Transmetropolitan, não existe frugalidade. Há o excesso, o exagero borbulhante nas idéias, nos corpos, no próprio exagero. E ninguém liga para as drogas. Elas são parte do cotidiano, assim como a televisão e o transporte público (pelo menos para alguns de nós).
É incrível. Sinto despeito e admiração desmedida ao mesmo tempo. Uma pessoa esquisitamente controversa, que vive no interior do sul da Inglaterra, chamada Warren Ellis escreve muito melhor que a maioria dos autores que conheço, sobre uma realidade totalmente ficcional e cuja essência é dificilmente alcançada pela grande maioria das pessoas do globo. O que dizer então dos ilustradores Darick Robertson e Rodney Ramos (conterrâneo!), que de maneira ímpar caracterizam essa realidade de maneira tão independente que chegam a ser considerados co-autores?
“Cale a boca.” Transmetropolitan é ao mesmo tempo carnal e astral. Fala sobre anti-sépticos e avançados softwares e informação transferida diretamente ao cérebro, ao mesmo tempo em que mostra corpos sujos, membros artificiais sintéticos ligados à um cancro canceroso estabilizado por medicamentos cheios de efeitos colaterais. Fala do alcance messiânico de Deus por meio da tecnologia de ponta e de sexo como um analgésico para uma existência entediada numa babilônia tecnológica e pútrida.
Uma das histórias lança o dilema do que pode ser considerado humano. É humano uma mente escaneada que vive no mundo virtual? Ainda possui alma? É menos humano do que alguém que possui somente um membro artificial? Qual é o ponto de mutação de si próprio em que se perde a humanidade, a característica que possibilita alguém de se dizer humano? De um extremo, um software imortal e imaterial criado a partir de uma mente humana pode ser considerado humano, e do outro, alguém com ligas metálicas que consertaram um ombro com os ligamentos rompidos, não!
As impressões deixadas no cérebro do leitor são indeléveis como se tivessem sido feitas por um picador de gelo. Transmetropolitan me fez os olhos brilharem, me fez ter vontade de gritar, de pular, e por fim, de escrever. Faço de tudo para me ver dentro e rodeado holisticamente pelo seu universo. Sigo à risca as sugestões de leituras, de sites, de trilha sonora. Portishead toca no meu winamp e eu me sinto estranhamente conectado com um universo virtual e de possibilidades infinitas e antiéticas, quando percebo que minha mente não está na tela do monitor de LCD e eu posso olhar ao redor e me ver digitando, a sujeira que eu mesmo fiz na minha sala, o meu próprio corpo.
O que mais quero no momento é aprofundar meu conhecimento na cultura pop. Ler mais Grant Morrison, que é citado no editorial da revista, e um vago estalo me faz procurar na minha prateleira e perceber que já possuo um exemplar da obra desse outro notável artista inglês: Asilo Arkham, uma história esplendidamente atmosférica e sensorial do Batman. Os quadrinhos, a música pop underground, a sub e contracultura que ignoramos é fonte das mais ricas de todo o tipo de deleite artístico e psicológico.
Por fim, Trasmetropolitan nos dá a possibilidade de ver quão longe a humanidade pode chegar. E muito antes da invenção de sintetizadores de matéria e a possibilidade de downloadear sua mente para zilhões de foglets brilhantes.
PS - A quem interessar a arte de Warren Ellis, eu passo os scans!