segunda-feira, 30 de março de 2009

Hellblazer




Eu não deveria ter vindo aqui.

Essa cidade é uma boca apodrecida: seus prédios são dentes quebrados soltos em gengivas estragadas.

Ela lambeu os lábios e me engoliu.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Cabelos, volume II.

Meu cabelereiro é um artista abstrato incompreendido. Um gênio quebrando paradigmas estéticos nas cabeças alheias. Suas obras ficarão marcadas como o apogeu de toda uma época artística, e eu terei sido a cobaia, o pilar imortalizado para a posteridade. Sim, porque inexoravelmente, devido ao pensamento muito a frente de seu tempo, meu cabelereiro só será reconhecido em morte, postumamente.

Eu me olho no espelho e tenho vontade de fazer esse "em morte" mais cedo do que tarde.

O retorno de um clássico, sempre oportuno.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Negritos.

No tempo da minha pré-adolescência, ninguém tinha internet. Quer dizer, um monte de gente devia ter, mas à época, Medianeira se bastava como meu universo. E cara, eu achava aquele universo imenso!


Modem 56k da US Robotics: a culpa é toda dele!

Afinal, mesmo numa cidade de 40 mil habitantes existe um absurdo de gente interessante pra se conhecer, não é? Por conta disso e por tudo ainda parecer tão grande pra mim, eu não me sentia sozinho de maneira alguma.


Fragmento da cena medianeirense dos anos 90. Observem o precoce talento para as 1ª e 2ª Artes - Música e Dança - respectivamente.

Como um bom pequeno insone, passava a madrugada com livros divertidíssimos, como o manual básico de GURPS - e suas milhares de tabelas e regras até pra cavar buracos no deserto com chuva.

Ou ainda a releitura de Os 12 Trabalhos de Hércules do Monteiro Lobato, que colocava Pedrinho, Narizinho, Emília e o Visconde de Sabugosa batendo boca com os mitos e deuses gregos como se fossem o picolezeiro da esquina. E em português do início do século passado. Não é à toa que o meu vocabulário aos 11 anos era maior que o de agora.


Logo veio a internet lá pra casa, e o amado mIRC. No #medianeira, vi que a cena local era grande mesmo. Bem, toda aquela selva social assustadora para mim, o que tornava tudo muito divertido. Já fora do regional, conheci pelego de tudo que é canto, e ficou tudo muito maior. O buraco era mesmo mais embaixo. Embaixo tipo a fossa das marianas no pacífico.

A profundíssima fossa das marianas no pacífico demonstra como o buraco é mais embaixo.



Pelego de tudo que é canto.

Mas eu logo me adaptei.

Até me mudar pra Curitiba com 16 anos.

Hoje acho engraçado o fato de não ter me sentido entediado, sozinho naquele tempo esquisito da aurora da minha puberdade, quando eu ainda era imberbe. Afinal, eu passava muito tempo só comigo mesmo. Eu conseguia. Eu até gostava. É uma capacidade superhumana que eu atrofiei ao longo do tempo. A internet me amoleceu.

E não bastasse isso tudo, tenho que confessar: derrubei cerveja no teclado e as teclas do extremo esquerdo estão todas travadas. E era uma Hoegaarden. Já disse o Guto que deve ser um teclado feliz.

PS - O excesso de negritos é intencional. Tenho lido muitos quadrinhos, e eu adoro o drama dos negritos nas HQ´s.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Amaciar

Eu dirijo mal.

Mal mesmo.

Mesmo assim, às vezes, eu gosto de acelerar. Não o meu carro, um 1.6 8v, pouco mais de 90 cv, com uma relação de marchas curtíssima que me obriga a andar a 40 km/h em quinta marcha. Dizem meus amigos entendidos que eu preciso amaciar. Tá. Certo. Morro de preguiça de enfiar o pé e ouvir o motor gritando.

Gosto de acelerar o carro do meu pai, um 3.3 V6 de 24 válvulas e 250 cv de potência, com um câmbio automático moderno que sabe o que eu quero do motor quando enfio o pé no acelerador.

Primeiro, ouço o rugido e vejo o conta-giros ir ao vermelho. Frações de segundo depois, a dianteira do enorme capô se inclina, e antes que eu perceba o aumento da velocidade, já sinto o meu corpo pressionado no largo e confortável banco de couro.

Nessa hora eu sempre deslizo as mãos pelo volante, apertando com força sua parte de madeira.

A velocidade aumenta, mas não observo o velocímetro. Busco pontos de referência no meu campo de visão, querendo me auto-proporcionar a sensação de velocidade que o estável sedã tão dificilmente me cede. A cabine anti-incêndio e ruídos veda qualquer tipo de som exterior, até mesmo o do vento se chocando contra a carroceria. Só ouço minha respiração e o meu motor.



Eu não teria como fazer esse ritual usando o tiptronic.

No auge do êxtase, recupero a consciência do meu corpo. Tenho frio na barriga, medo. Eu tiro o pé, encosto com leveza no freio. ABS com EBD e BAS, controle de tração e programa eletrônico de estabilidade são os filtros que impedem a minha falta de perícia se concretizar em tragédia. Se tudo mais falhar, que venham os 11 air-bags.

O motor se acalma, e eu rodo com suavidade, com o sistema de suspensão filtrando as imperfeições do piso. Respiro fundo, ligo a música, em alto volume e fidelidade, no sistema de som Infinity de dez alto-falantes.

Volto pra casa.

Esse fim de semana foi assim. Só que sem o carro.

E eu dirijo mal.

sábado, 7 de março de 2009

Spider Jerusalém.


Mais um da série escritos inacabados: isso foi rascunhado com muita empolgação e pouco método, na madrugada de 1º de setembro de 2007. É obvio que nunca terminei. Mesmo assim, olha lá!

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“Nós adorávamos nossa miséria, nos anos 80. E quem pode nos culpar?”

Acabei de ler o volume 8 da HQ obscura Transmetropolitan. É chocante, desconcertante e é escatológico em vários sentidos.

Mas também é soberbo, brilhante e profunda, profundamente sensível. Por trás das tiradas de humor cru vindos de uma realidade retalhada, espalhafatosa e amoral, sentimos a onda de choque da voz que mostra que a Cidade está viva, seja na mesopotâmica Ur, seja na surrealidade cyberpunkiana da metrópole amada e odiada por Spider Jerusalém, que come seus indefectíveis hambúrgueres de macaco.

Essa cidade está viva e é alimentada por todas as pessoas e culturas que nela vivem. Ela proporciona o máximo em possibilidades e experiências e seu preço é a degradação inexorável da moralidade. Não bastasse, essa degradação progride enquanto se tenta sobreviver num ambiente estranhamente paradoxal, onde as bravatas e sofismas são a regra e a verdade é um tipo de graal, ainda que procurada por pouquíssimos. Aqui, os jornalistas como Spider Jerusalém são os Cavaleiros da Távola Redonda.

“Meu garotão tem verrugas da moda. Ele fica duro, parece um maldito porco-espinho do sexo. As garotas adoram.”

Em Transmetropolitan, não existe frugalidade. Há o excesso, o exagero borbulhante nas idéias, nos corpos, no próprio exagero. E ninguém liga para as drogas. Elas são parte do cotidiano, assim como a televisão e o transporte público (pelo menos para alguns de nós).

É incrível. Sinto despeito e admiração desmedida ao mesmo tempo. Uma pessoa esquisitamente controversa, que vive no interior do sul da Inglaterra, chamada Warren Ellis escreve muito melhor que a maioria dos autores que conheço, sobre uma realidade totalmente ficcional e cuja essência é dificilmente alcançada pela grande maioria das pessoas do globo. O que dizer então dos ilustradores Darick Robertson e Rodney Ramos (conterrâneo!), que de maneira ímpar caracterizam essa realidade de maneira tão independente que chegam a ser considerados co-autores?

“Cale a boca.”

Transmetropolitan é ao mesmo tempo carnal e astral. Fala sobre anti-sépticos e avançados softwares e informação transferida diretamente ao cérebro, ao mesmo tempo em que mostra corpos sujos, membros artificiais sintéticos ligados à um cancro canceroso estabilizado por medicamentos cheios de efeitos colaterais. Fala do alcance messiânico de Deus por meio da tecnologia de ponta e de sexo como um analgésico para uma existência entediada numa babilônia tecnológica e pútrida.

Uma das histórias lança o dilema do que pode ser considerado humano. É humano uma mente escaneada que vive no mundo virtual? Ainda possui alma? É menos humano do que alguém que possui somente um membro artificial? Qual é o ponto de mutação de si próprio em que se perde a humanidade, a característica que possibilita alguém de se dizer humano? De um extremo, um software imortal e imaterial criado a partir de uma mente humana pode ser considerado humano, e do outro, alguém com ligas metálicas que consertaram um ombro com os ligamentos rompidos, não!

As impressões deixadas no cérebro do leitor são indeléveis como se tivessem sido feitas por um picador de gelo. Transmetropolitan me fez os olhos brilharem, me fez ter vontade de gritar, de pular, e por fim, de escrever. Faço de tudo para me ver dentro e rodeado holisticamente pelo seu universo. Sigo à risca as sugestões de leituras, de sites, de trilha sonora. Portishead toca no meu winamp e eu me sinto estranhamente conectado com um universo virtual e de possibilidades infinitas e antiéticas, quando percebo que minha mente não está na tela do monitor de LCD e eu posso olhar ao redor e me ver digitando, a sujeira que eu mesmo fiz na minha sala, o meu próprio corpo.

O que mais quero no momento é aprofundar meu conhecimento na cultura pop. Ler mais Grant Morrison, que é citado no editorial da revista, e um vago estalo me faz procurar na minha prateleira e perceber que já possuo um exemplar da obra desse outro notável artista inglês: Asilo Arkham, uma história esplendidamente atmosférica e sensorial do Batman. Os quadrinhos, a música pop underground, a sub e contracultura que ignoramos é fonte das mais ricas de todo o tipo de deleite artístico e psicológico.

Por fim, Trasmetropolitan nos dá a possibilidade de ver quão longe a humanidade pode chegar. E muito antes da invenção de sintetizadores de matéria e a possibilidade de downloadear sua mente para zilhões de foglets brilhantes.

PS - A quem interessar a arte de Warren Ellis, eu passo os scans!