quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

demasiadamente humano (e amargo)


noite dessas, numa degustação de cana com meus imberbes jovens amigos de confraria, conheci a curitibana diabólica e seus maldosos 6,66 abv.*

 600ml de india pale ale, feitos na panela, edição limitada. 

agora, a là mode dos antigos mestres de cerimônia, convido o distinto leitor a adentrar pelo misterioso universo do charme artesanal e do prazer perverso da exclusividade.

é uma garrafa retrô, num quê de tubaína, com um rótulo lindo e resistente que invoca fogo em brasa. repare que capricho: o prazo de validade  estava escrito à mão, com uma letra de forma angulosa, mas tranquilamente legível.

ingredientes: nada além de sete tipos de mate - incluso um defumado - cevada, água e muito lúpulo. não bastasse essa quantidade cavalar do lobo do solo, utiliza-se o dry hopping, que basicamente é acrescentar mais lúpulo ao fim do processo de alta fermentação das ales.

o que eu acho? uma cerveja de cor âmbar, turva, com um ótimo corpo, formação de espuma média e persistente, exalando intenso aroma cítrico, herbal e de mates tostados.  

ao fim, no retrogosto, sinta comigo o coice de mais de 40 IBU.**

a infernal não foi bem um sucesso de crítica no seio do nosso clube de carinhosa alcunha: confraria do eu sozinho.***

compreensível. nosso paladar foi deturpado degenerado acostumado à cervejas pilseners deprimentes à base de milho, filtradas um mol de vezes numa tentativa bem patética de camuflar um gosto que é um desgosto.

consideração reflexiva padrão: 

amigo leitor, faça-me companhia ouvindo caetano veloso cantarolar que "cada um sabe a dor e a delícia de se ser o que é". 


a mim, parece bem razoável a seguinte metáfora: 

uma pilsener lite industrial de larga escala é uma vida perdida no piloto automático do cotidiano. tediosa até dizer chega, engolimos cada gole, cada copo, cada sapo. com o passar do tempo, dá-se a impressão de melhorar. vã ilusão da mente nublada.
uma não-vida, na qual se busca só o refrescar estupidamente gelado, esperar o fim de semana e nada mais.

uma IPA - sigla de india pale ale - é a vontade nietzscheniana de vida. afirmativa. uma vida grandiosa, poderosa como se deve ser. equilibrando dulçor, amargor e o agridoce, com aromas que resfriam as vias aéreas como o cheiro de hortelã e perfumam com os florais da fermentação.

amarga, encorpada, saborosa. uma vida sempre intensa.

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* - do inglês, alcohol by volume.
** - também do inglês, International Bitterness Units scale, escala que mensura o amargor das cervejas.

post scriptum: pelo Standard Reference Method, a coloração da diabólica tende mais para um índice 26, de uma double IPA, do que uma IPA tradicional, de índice 12.

vergonha


grant morrison, em Superdeuses - Ed. Seoman, 2012, tradução de Érico Assis - relata anotações do tipo diário desde os sete anos de idade. quis ser escritor desde os cinco.

eu não escrevo por vergonha.

vergonha de não escrever sempre.
vergonha da autocrítica acachapante.
vergonha por postergar coisas mais importantes mais urgentes para escrever sem vergonha.

 vergonha de não escrever.