noite dessas, numa degustação de cana com meus imberbes jovens amigos de confraria, conheci a curitibana diabólica e seus maldosos 6,66 abv.*
600ml de india pale ale, feitos na panela, edição limitada.
agora, a là mode dos antigos mestres de cerimônia, convido o distinto leitor a adentrar pelo misterioso universo do charme artesanal e do prazer perverso da exclusividade.
é uma garrafa retrô, num quê de tubaína, com um rótulo lindo e resistente que invoca fogo em brasa. repare que capricho: o prazo de validade estava escrito à mão, com uma letra de forma angulosa, mas tranquilamente legível.
ingredientes: nada além de sete tipos de mate - incluso um defumado - cevada, água e muito lúpulo. não bastasse essa quantidade cavalar do lobo do solo, utiliza-se o dry hopping, que basicamente é acrescentar mais lúpulo ao fim do processo de alta fermentação das ales.
o que eu acho? uma cerveja de cor âmbar, turva, com um ótimo corpo, formação de espuma média e persistente, exalando intenso aroma cítrico, herbal e de mates tostados.
ao fim, no retrogosto, sinta comigo o coice de mais de 40 IBU.**
a infernal não foi bem um sucesso de crítica no seio do nosso clube de carinhosa alcunha: confraria do eu sozinho.***
compreensível. nosso paladar foi deturpado degenerado acostumado à cervejas pilseners deprimentes à base de milho, filtradas um mol de vezes numa tentativa bem patética de camuflar um gosto que é um desgosto.
consideração reflexiva padrão:
amigo leitor, faça-me companhia ouvindo caetano veloso cantarolar que "cada um sabe a dor e a delícia de se ser o que é".
a mim, parece bem razoável a seguinte metáfora:
uma pilsener lite industrial de larga escala é uma vida perdida no piloto automático do cotidiano. tediosa até dizer chega, engolimos cada gole, cada copo, cada sapo. com o passar do tempo, dá-se a impressão de melhorar. vã ilusão da mente nublada.
uma não-vida, na qual se busca só o refrescar estupidamente gelado, esperar o fim de semana e nada mais.
uma IPA - sigla de india pale ale - é a vontade nietzscheniana de vida. afirmativa. uma vida grandiosa, poderosa como se deve ser. equilibrando dulçor, amargor e o agridoce, com aromas que resfriam as vias aéreas como o cheiro de hortelã e perfumam com os florais da fermentação.
amarga,
encorpada, saborosa. uma vida sempre intensa.
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* - do
inglês, alcohol by volume.
** - também do
inglês, International Bitterness Units scale, escala que mensura o amargor
das cervejas.
*** - a saber,
em ordem alfabética: alessandra elisa gromowsky, ariel
frassetto oliveira, bruna
steckling, luana oliveira, maísa vendrame kuhne, paula
graziela gasparin e rafael de
conto bett.
post scriptum:
pelo Standard Reference Method, a coloração da diabólica tende mais para
um índice 26, de uma double IPA, do que uma IPA tradicional, de
índice 12.


